Se você tentou aproveitar uma promoção recente de SSD e não encontrou nada em estoque, não foi azar. Segundo o vice-presidente da Silicon Motion, Nelson Duann, “o mercado de varejo quase desapareceu” no primeiro semestre de 2026. Em entrevista ao Tom’s Hardware, o executivo explicou por que as prateleiras virtuais estão vazias e como a ascensão de servidores para inteligência artificial (IA) mudou, de repente, toda a rota de distribuição de chips NAND.
Crise sem precedentes no varejo de SSDs
Tradicionalmente, marcas como Kingston, Crucial e WD competem ferozmente pelo consumidor final, oferecendo modelos PCIe 4.0 de 1 TB abaixo de R$ 400 e até drives PCIe 5.0 com dissipadores dignos de placa de vídeo. Mas esse fluxo desidratou desde o fim de 2025. A Silicon Motion — que fornece controladores para fabricantes ODM como Powertech Technology e Biwin — afirma que praticamente todo o lote de chips que antes virava SSD “de prateleira” agora sai de fábrica diretamente dentro de PCs OEM.
Resumindo: em vez de você comprar um Kingston NV2 avulso, a Acer, a Asus ou a Dell estão comprando o lote inteiro para pré-instalar nos desktops e notebooks que chegam às lojas.
Onde foram parar os chips NAND?
O ponto central da crise é a priorização dos datacenters de IA. Empresas como Samsung, SK Hynix, Kioxia e Micron redirecionaram linhas inteiras de memória flash NAND para atender gigantes que montam servidores voltados a modelos generativos — pense em ChatGPT, Gemini e companhia.
Esses servidores devoram SSDs de alta durabilidade (DWPD elevado), latência mínima e, principalmente, capacidade. Para cada drive PCIe 4.0 de 1 TB vendido no varejo, um único rack de IA pode exigir dezenas de unidades U.2 ou E1.S de 15,3 TB. O resultado? Faltam wafers para o mercado doméstico.
Impacto prático: preço alto e poucas opções para gamers e entusiastas
• Inflação imediata: analistas do TrendForce já registram aumento de até 18 % nos contratos spot de NAND desde janeiro de 2026.
• Modelos básicos primeiro a sumir: SSDs DRAM-less de entrada, como Patriot P300 ou Kingston NV1, ficaram escassos. São justamente os preferidos de quem faz upgrade em máquinas antigas.
• Delay nos PCIe 5.0 acessíveis: esperava-se que controladores Phison E26 mais baratos chegassem agora no segundo trimestre; com menor oferta de NAND de 232 camadas, o cronograma escorregou para o fim do ano.
Para quem monta PCs focados em jogos atuais, a recomendação dos varejistas é antecipar compras quando surgir estoque — especialmente unidades de 2 TB, tamanho que caiu no gosto de quem instala AAA de 150 GB sem dor.
Imagem: William R
Silicon Motion e Phison: vendendo “pá e picareta” para a corrida do ouro da IA
Curiosamente, os fabricantes de controladores não sentiram o baque. Silicon Motion e Phison viram os pedidos crescerem porque cada placa de IA precisa não só de chips NAND, mas também de controladores de altíssima largura de banda e recursos como PCIe Gen 5 x4 e NVMe 2.0. Dessa forma, as linhas de produção seguem a todo vapor, só que endereçadas a quem paga mais: os datacenters.
Há luz no fim do túnel?
• A Micron e a Samsung anunciaram expansão de fábricas de 238 a 300 camadas de NAND para 2027, o que deve normalizar a oferta.
• Novas tecnologias, como QLC de 4ª geração, prometem reduzir custos por GB — mas podem não agradar entusiastas que priorizam endurance.
• Para quem precisa de upgrade imediato, vale ficar de olho em promoções relâmpago — sobretudo de estoques remanescentes de 176 camadas PCIe 4.0, que ainda entregam leituras acima de 7 GB/s, mais do que suficiente para DirectStorage e futuros patches de Starfield.
No curto prazo, a melhor estratégia é monitorar alertas de preço em marketplaces e considerar marcas menos conhecidas, mas confiáveis (TeamGroup, Netac, Lexar), que ainda conseguem lotes limitados de NAND.
No cenário macro, a migração massiva de memória flash para IA escancarou o novo equilíbrio de poder da indústria: quem dita as regras não é mais o mercado gamer, e sim a nuvem inteligente que alimenta nossos chatbots.
Com informações de Hardware.com.br