Já pensou em trocar de marcha e, ao mesmo tempo, pular a música no Spotify sem que ninguém perceba? Foi exatamente isso que o maker brasileiro Luan “Desmontei” Valladares conseguiu ao transformar um TicWatch Pro 3 GPS sem bateria em uma manopla de câmbio totalmente funcional para seu Audi A4 B5 2001. O projeto, batizado de GearDetector, viralizou em fóruns e grandes veículos internacionais porque combina reciclagem eletrônica, impressão 3D e um bom punhado de código.
Da gaveta de sucata para o console do carro
Quando a bateria de seu TicWatch morreu, Valladares abriu o relógio “sem dó nem piedade”. Ele descobriu que tanto a tela AMOLED quanto a placa-mãe — equipada com acelerômetro e giroscópio de alta precisão — estavam intactas. Em vez de descartar o gadget, decidiu reaproveitá-lo em um dos pontos mais icônicos de qualquer carro esportivo: a alavanca de câmbio.
Hardware Frankenstein, mas seguro
Para suportar o calor interno de um carro fechado, a bateria original foi removida e substituída por alimentação direta dos 12 V do veículo, regulados por um conversor buck. Assim, o conjunto só liga quando a chave gira na ignição, reduzindo riscos de curto-circuito ou incêndio — um cuidado essencial para quem se anima a tentar algo parecido em casa.
Como o GearDetector “sente” cada marcha
Diferente de soluções caras com atuadores ou sensores dedicados, o app GearDetector usa apenas o vetor gravitacional medido pelo relógio. Cada engate tem um “DNA” de inclinação exclusivo. Para filtrar solavancos de pista e frenagens bruscas, Valladares implementou um Filtro Passa-Baixa Exponencial que estabiliza a leitura do IMU sem atrasar a resposta — um equilíbrio difícil até em centros de P&D automotivos.
Controle multimídia invisível
A comunidade do Reddit pediu, e o brasileiro atendeu: a tela da manopla agora reconhece gestos. Deslize para a direita, música seguinte; para a esquerda, faixa anterior; toque longo, play/pause. O truque usa o perfil Bluetooth AVRCP, presente em praticamente todos os smartphones Android vendidos na Amazon e fora dela. E, para evitar toques acidentais enquanto você “toma aquele heel-and-toe”, o software ignora comandos durante a troca de marcha detectada pelo acelerômetro.
Por que isso importa para quem curte hardware?
- Reciclagem criativa: smartwatches antigos, que muitas vezes ficam largados na gaveta, podem ganhar nova vida em projetos DIY.
- Impressão 3D acessível: a carcaça foi impressa em PLA, material barato, e já há planos de migrar para ABS ou ASA, plásticos mais resistentes ao calor e também fáceis de comprar online.
- Wear OS além do pulso: mostra como o sistema do Google pode ser explorado fora do ecossistema tradicional de relógios.
- Integração futura com OBD2: a próxima versão deverá exibir RPM e temperatura do motor — funções que lembram head-up displays de carros premium, mas a custo quase zero para quem já tem uma placa ESP32-S3 na bancada.
Comparando com soluções de mercado
Alguns esportivos modernos oferecem manoplas eletrônicas com displays OLED, mas esses opcionais podem adicionar milhares de dólares à fatura. Já acessórios aftermarket que mostram marchas em tempo real normalmente dependem de sensores na caixa de câmbio ou ligação à ECU, exigindo instalação invasiva. O hack de Valladares dribla tudo isso com apenas:
Imagem: Internet
- Um smartwatch antigo (hoje facilmente encontrado recondicionado na Amazon);
- Uma impressora 3D de entrada, como a Creality Ender 3;
- Componentes eletrônicos simples — conversor step-down e fios de 12 V.
Reação global: do Tom’s Hardware ao Android Authority
Em menos de 48 horas após a publicação no Reddit, o projeto foi destaque em Tom’s Hardware, Android Authority, Tweakers.net, Motor.es e outros portais de tecnologia e automobilismo. A razão é clara: trata-se de um exemplo tangível de upcycling e open source, dois temas que dominam as buscas de “como fazer” e atraem tráfego no Google Discover.
O que vem por aí: DOOM na manopla?
Além da integração OBD2, o brasileiro promete que a V2 da manopla rodará o clássico DOOM — praticamente um rito de passagem para qualquer display hackeável. Os arquivos STL, esquemáticos e código-fonte sairão em licença aberta, facilitando que outros entusiastas repliquem (e melhorem) o projeto.
No fim das contas, o GearDetector é mais do que um truque de garagem: é uma aula prática de como sensores esquecidos podem elevar a experiência automotiva sem esvaziar sua conta bancária. Fica a inspiração para revistar aquele velho smartwatch — ou garantir um modelo básico nas próximas promoções — e começar a imprimir ideias que só estavam esperando o filamento esquentar.
Com informações de Mundo Conectado