Você se lembra de quando comprava um software ou aplicativo — e ele era seu para sempre? Pois bem, esse cenário vem mudando a passos largos. Um grupo de 16 organizações de defesa do consumidor, liderado pelo Conselho do Consumidor da Noruega (Forbrukerrådet), acaba de enviar uma carta a legisladores da União Europeia, do Espaço Econômico Europeu, do Reino Unido e dos Estados Unidos pedindo o fim da chamada digital enshittification. O termo, popularizado pelo escritor e ativista Cory Doctorow, descreve o processo em que plataformas pioram a experiência do usuário à medida que conquistam mercado, bloqueiam concorrentes e passam a priorizar lucros em detrimento da qualidade.
O que está em jogo
Segundo a carta, há uma concentração excessiva de poder nas mãos de poucas empresas de tecnologia, o que leva a três problemas centrais:
- Falta de alternativas viáveis para o consumidor;
- Pressão por paywalls, assinaturas e anúncios invasivos para liberar funções antes gratuitas;
- Dificuldade para pequenas empresas competirem, travando a inovação.
Os signatários pedem a criação de um Digital Fairness Act, algo como “Lei de Justiça Digital”, e a aplicação mais rígida das normas já existentes, como o Digital Markets Act europeu. A ideia é reequilibrar a balança entre provedores de software e usuários, garantindo portabilidade de dados, interoperabilidade e o direito de escolha.
Por que isso importa para você, gamer ou entusiasta de hardware?
A discussão parece abstrata, mas respinga diretamente em quem investe em periféricos premium, placas de vídeo topo de linha ou CPUs de última geração. Afinal, de que adianta montar um PC potente se o software que você usa para criar, editar ou jogar começa a cobrar extras por recursos que já estavam pagos?
Exemplo prático: imagine comprar um mouse gamer com 12 botões programáveis e descobrir seis meses depois que as macros avançadas agora exigem assinatura mensal. Ou investir em um teclado mecânico customizável e ver o software de iluminação RGB migrar para a nuvem, limitando os perfis locais e inserindo anúncios de DLC de efeitos. É essa espiral de custos e perda de controle que preocupa organizações de defesa do consumidor.
Assinaturas forçadas e IA empurrada goela abaixo
Outra queixa recorrente no documento é a inclusão apressada de IA em todos os cantos — nem sempre porque o usuário precisa, mas porque a empresa quer criar novos pontos de monetização. No universo corporativo, recursos baseados em inteligência artificial já chegam atrelados a planos mais caros. No doméstico, apps que antes rodavam offline agora exigem login permanente em nuvem para “otimizar” resultados, coletando dados preciosos sobre o seu uso.
Imagem: Maxwell Cooter
Como a UE pode mudar o jogo
A Europa tem fama de legislar antes do resto do mundo em temas digitais. Foi assim com o GDPR (proteção de dados) e com o carregador USB-C universal. Se o bloco avançar para conter a enshittification, há boas chances de vermos efeitos positivos globais, inclusive no Brasil. Entre as propostas estão:
- Multas pesadas para práticas anticoncorrenciais;
- Obrigatoriedade de APIs abertas que permitam a interoperabilidade entre serviços rivais;
- Direito do consumidor de instalar versões offline sem anúncios;
- Proibição de tying ou bundling forçado de features não desejadas.
O que observar daqui para frente
Para quem acompanha lançamentos de hardware ou planeja upgrades, vale monitorar:
- Política de software que acompanha seu equipamento — verifique se há cobrança futura por funções essenciais;
- Compatibilidade com ferramentas de terceiros, garantindo que você possa trocar de app sem perder acesso ao periférico;
- Histórico da marca em atualizações: empresas transparentes tendem a detalhar cronogramas de suporte e custos extras.
No fim das contas, a pressão popular pode forçar mudanças de rota antes que práticas abusivas se consolidem. Resta saber se os legisladores — e nós, consumidores — reagiremos a tempo de impedir que a enshittification transforme a experiência digital em um serviço cada vez mais caro e menos livre.
Com informações de Computerworld