Imagine trocar uma despesa mensal de mais de mil reais por um valor inferior ao preço de um cafezinho por dia. É exatamente essa a perspectiva apontada por pesquisadores da University of Liverpool para quem depende da semaglutida — princípio ativo das canetas Ozempic e Wegovy, usadas no controle da diabetes tipo 2 e da obesidade. Segundo o novo estudo, a versão genérica desse medicamento poderia custar menos de US$ 3 (cerca de R$ 15,80) ao mês.
Por que esse corte de preço é tão significativo?
Hoje, o brasileiro que busca o tratamento paga até R$ 1.299,70 pelo Ozempic ou impressionantes R$ 2.504,02 pelo Wegovy a cada 30 dias. Nos Estados Unidos, mesmo com descontos e programas de fidelidade, o valor médio beira os US$ 349 mensais. A disparidade é tão grande que, se as projeções se confirmarem, falamos de uma redução de mais de 98% no gasto mensal.
Como os cientistas chegaram a esse número?
A equipe analisou dados de remessas de ingredientes farmacêuticos de 2024 e 2025, investigou custos de packaging, impostos, margens de lucro e comparou com modelos já aceitos pela indústria. Resultado: a fabricação de uma dose injetável custaria algo entre US$ 0,01 e US$ 0,12, enquanto a própria caneta ficaria entre US$ 0,30 e US$ 2,50. Mesmo considerando lucro e logística, o valor anual projetado para o tratamento variaria de US$ 28 a US$ 140, o equivalente a R$ 147 a R$ 738.
Patentes vencendo: o gatilho da “guerra de preços”
No Brasil, a patente da semaglutida expira em 20 de março. Índia, China e Canadá também verão a exclusividade da Novo Nordisk chegar ao fim em 2024, abrindo caminho para laboratórios locais lançarem suas próprias versões. Analistas já preveem uma “guerra de preços” que pode derrubar o custo mensal para cerca de US$ 15 (R$ 80) em vários mercados — e potencialmente ainda mais baixo à medida que a produção escala.
Impacto prático: quem ganha com o genérico?
• Pessoas com diabetes tipo 2: melhor controle glicêmico significa menos complicações a longo prazo.
• Público com obesidade: a semaglutida ajuda na perda de peso sustentável, reduzindo riscos cardiovasculares.
• Sistemas de saúde: tratamentos mais baratos aliviam o orçamento de programas públicos e privados, permitindo ampliar a cobertura.
• Indústria farmacêutica local: abre-se um mercado bilionário para genéricos, estimulando competitividade e inovação em dispositivos de aplicação.
Barreiras ainda no caminho
Antes de irem às prateleiras, os genéricos precisam passar pelo crivo da Anvisa. A agência já sinalizou prioridade na avaliação, mas revisará dossiês de qualidade, segurança e eficácia para garantir equivalência terapêutica. Somente depois da aprovação é que poderemos ver o novo preço chegando às farmácias.
Imagem: Kokosha Yuliya
E a versão em comprimido?
A pesquisa mostra que a forma oral da semaglutida ainda é mais cara de produzir — entre US$ 186 e US$ 380 por ano. Mesmo assim, é provável que as cápsulas também fiquem mais acessíveis com a perda de patente, embora não ao mesmo nível das canetas injetáveis.
O que esperar nos próximos meses
• Março/2024: fim da patente no Brasil.
• 1º semestre de 2024: submissão e possível aprovação acelerada de genéricos pela Anvisa.
• 2º semestre de 2024: chegada das primeiras marcas alternativas às farmácias, com potencial queda de preço imediato.
• 2025 em diante: expansão global para cerca de 160 países, podendo beneficiar 69% dos diabéticos tipo 2 e 84% das pessoas com obesidade no planeta.
Se as previsões dos pesquisadores se concretizarem, a semaglutida poderá deixar de ser um tratamento de elite para se tornar um recurso de acesso universal, modificando drasticamente o cenário de saúde pública e o bolso do consumidor.
Com informações de Olhar Digital