A cada novo rumor sobre o “gadget mágico” que a OpenAI estaria criando com Jony Ive, surge a impressão de que, muito em breve, enterraremos de vez as telas. Relógios, anéis e pingentes cheios de IA generativa pintam um futuro no qual comandos de voz, gestos e sensores substituem o toque em vidro e alumínio. Mas, na prática, nada disso acontece isoladamente: quase todos esses wearables nascem como periféricos do bom e velho smartphone.
OpenAI, Apple, Amazon: a febre dos “assistentes de bolso”
O estopim da conversa veio com a notícia de que a OpenAI desembolsou US$ 6,5 bilhões para adquirir a startup io, de Ive, e já teria fechado com a Foxconn a produção de até 50 milhões de unidades de um dispositivo que, pasme, ainda nem foi finalizado. Lenovo, HP e até a própria Apple estariam seguindo a mesma trilha: a gigante de Cupertino trabalha em um acessório do tamanho de um AirTag capaz de interpretar gestos e comandos de voz.
Há também as apostas independentes: Sandbar, tocada por ex-Meta, apresentou o Stream, um anel inteligente que registra notas de voz e dispara ações em assistentes digitais. Eric Migicovsky, criador do primeiro Pebble, planeja um anel de US$ 75 para capturar áudio e mandar à nuvem. A Bee, adquirida pela Amazon, promete um “colarzinho” que resume conversas automaticamente.
Miniaturização de áudio duplex: o que mudou desta vez?
Duas evoluções tornam esses projetos mais viáveis em 2024. A primeira é o áudio duplex miniaturizado, que possibilita diálogo ininterrupto entre humano e IA, com interrupções naturais – algo antes restrito a fones premium. A segunda é o poder de processamento local embutido em SoCs de baixo consumo, semelhante ao Snapdragon Wear W5+ ou ao Apple S9 do Apple Watch Series 9.
Mesmo assim, nenhum desses gadgets substitui a experiência de tela: todos utilizam o smartphone como hub de conectividade, armazenamento ou visualização detalhada. Em outras palavras, o anel grava, mas quem transcreve é o app no celular; o pingente escuta, mas quem exibe suas insights é a tela OLED do aparelho que você já carrega.
Crianças, escolas e a cruzada contra as telas
Enquanto a indústria flerta com a “revolução screenless”, pais, educadores e legisladores travam outra batalha: limitar o tempo de tela entre jovens. Segundo a American Academy of Pediatrics, a simples contagem de horas em frente ao display não basta; é preciso repensar a relação completa das crianças com a tecnologia.
Quarenta por cento dos países já proíbem celular em sala de aula. Nos EUA, 35 estados adotaram regras de restrição; na Europa, França e Holanda saíram na frente; na Ásia, Coreia do Sul segue tendência semelhante. O paradoxo é que muitos desses mesmos distritos também banem wearables, temendo distrações ou colas em provas, inclusive smartwatches básicos como o Garmin Vívofit Jr. ou o Amazfit Bip 3.
Por que “menos tela” pode ser melhor — e possível
Ao contrário do smartphone, um relógio inteligente sem acesso a redes sociais viciantes oferece:
Imagem: Mike Elgan C
- Comunicação controlada: chamadas e mensagens apenas de contatos autorizados, útil para a tranquilidade dos pais;
- Funções de produtividade: timers, alarmes e lembretes que ajudam na rotina escolar;
- GPS integrado: localização em tempo real sem expor a criança a feeds infinitos.
Modelos como o Echo Dot Kids (que funciona como intercomunicador familiar) ou o fitbit Ace 3 (voltado a atividade física) já estão disponíveis no varejo brasileiro e podem ser configurados para bloquear notificações durante o período de aula.
O “tamanho de bolso” não garante invisibilidade
Definir regras absolutas contra wearables é, na prática, quase impraticável. Muitos anéis inteligentes, como o Oura Ring Gen 3, cabem dentro de uma meia e passam despercebidos em inspeções visuais. Uma revista minuciosa em centenas de alunos todos os dias seria logisticamente impossível.
Em vez do banimento puro e simples, especialistas sugerem políticas de uso inteligente: Modo Escola durante as aulas, abertura para wearables focados em segurança e bem-estar, e proibição apenas de recursos que gravem vídeo ou naveguem em redes sociais.
O futuro é híbrido: tela quando precisa, voz quando convém
Relatórios como o da The Business Research Company projetam que o mercado de ambient computing sem tela ultrapasse US$ 200 bilhões até 2030. Isso não significa, entretanto, o fim das telas. Óculos como o Ray-Ban Meta Smart Glasses, que já capturam vídeo e respondem via áudio, devem ganhar heads-up displays em versões futuras, combinando o melhor dos dois mundos — exatamente o que a Samsung fez com o Galaxy Ring, apresentado no MWC 2024, que se integra ao ecossistema Galaxy via app.
No fim das contas, a “revolução screenless” não anula seu smartphone; ela adiciona camadas de conveniência. Para adultos, o telefone continua sendo a central de mídia, produtividade e jogos. Para crianças, wearables podem — e talvez devam — ser a porta de entrada mais saudável no universo digital.
Com informações de Computerworld