A disputa pelos 96 milhões de brasileiros que pedem comida via aplicativo saiu das telas dos smartphones e entrou nas delegacias. As gigantes iFood, 99Food e Keeta agora trocam acusações de espionagem empresarial, furto de equipamentos e quebra de contratos de non-compete. O episódio expõe não só a fragilidade da segurança de dados no setor, mas também o tamanho do prêmio em jogo: um mercado que deve ultrapassar R$ 60 bilhões em 2026, segundo estimativas da Euromonitor.
O que está em jogo
O iFood, líder absoluto com 93 % de participação, diz ter identificado mais de 170 abordagens suspeitas a funcionários de áreas críticas da operação. Consultorias — muitas com sede na Ásia — estariam oferecendo entre US$ 200 e US$ 1.000 por hora de entrevista em troca de informações como margem de lucro, algoritmo de precificação e roadmap do assistente de IA Ailo.
Já a 99Food — recém-relançada em abril de 2025 com aporte bilionário da chinesa Didi — afirma que laptops corporativos foram furtados e que colaboradores receberam propostas idênticas para revelar datas de expansão e estratégias de mercado.
A novata Keeta, controlada pela Meituan, entrou no Brasil em outubro de 2025 prometendo investir R$ 5,6 bilhões em cinco anos. Em menos de um mês, oito restaurantes em Santos relataram visitas de falsos representantes da empresa interessados em “checar” dados de pedidos e sistemas de pagamento.
Como funciona a suposta espionagem
O método é quase sempre o mesmo: perfis enigmáticos no LinkedIn e e-mails corporativos convidam funcionários a participar de “pesquisas de mercado” altamente remuneradas. As perguntas, porém, não tratam de tendências macroeconômicas, e sim de insights táticos que poderiam ser usados para ajustar preços em tempo real, calibrar promoções relâmpago ou mesmo atrair restaurantes estratégicos.
Embora comprar conhecimento de mercado não seja crime, pedir dados confidenciais e incentivar a violação de contratos de sigilo é. Segundo fontes ligadas às empresas, as delegacias especializadas em crimes cibernéticos de São Paulo e Belo Horizonte já abriram inquéritos — todos sob sigilo de Justiça.
Non-compete em xeque
Além da caça a insights, o iFood alega que ex-funcionários sujeitos a cláusula de não concorrência foram procurados pela 99Food com a promessa de que “a questão contratual não seria problema”. O debate sobre a validade desse tipo de restrição cresce no Brasil, onde a LGPD e a Justiça do Trabalho exigem proporcionalidade e compensação financeira para que o non-compete seja realmente aplicável.
Imagem: William R
Impacto para restaurantes, entregadores e consumidores
- Restaurantes podem sofrer pressão de margem se um concorrente obtiver dados de vendas e ajustar taxas ou promoções estrategicamente.
- Entregadores correm o risco de ter modelos de remuneração rebaixados caso informações internas sobre custos logísticos vazem.
- Consumidores podem ver preços artificialmente inflacionados — ou promoções agressivas de curto prazo — enquanto as plataformas disputam território.
Por que você deveria se importar?
Para o usuário final, tudo parece limitado ao preço do próximo combo, mas a segurança de dados pessoais também entra em risco quando práticas agressivas se tornam padrão. Cartões cadastrados, endereços, histórico de pedidos e preferências alimentares compõem perfis valiosos que circulam em servidores de terceiros. Se até big techs enfrentam vazamentos rotineiros, imaginar o que pode ocorrer em um ambiente de espionagem corporativa contínua não é exagero.
Reforço de segurança vira diferencial competitivo
Com margens cada vez mais estreitas, as plataformas tendem a investir em criptografia ponta a ponta, autenticação multifator para funcionários e monitoramento de dispositivos. Para restaurantes e entregadores independentes, acessórios aparentemente simples — como roteadores com firewall dedicado ou notebooks com chip TPM 2.0 habilitado — podem fazer diferença na proteção de dados sensíveis.
Enquanto a Rappi prefere não se envolver na briga e segue com investimento de R$ 1,4 bilhão até 2028, o tabuleiro brasileiro do delivery confirma a máxima de que “dados são o novo petróleo”. A batalha legal promete capítulos longos, mas a mensagem é imediata: neste mercado, informação vale mais do que cupom de desconto.
Com informações de Hardware.com.br