Quase 50 anos depois do lançamento do VisiCalc, o “tataravô” das planilhas eletrônicas, a Google quer provar que ainda há muito espaço para inovação. Com o Gemini no Sheets (antigo Duet AI), a empresa promete aposentar as fórmulas criptografadas em “=SOMASE(B2:B100, …)” e colocar a Inteligência Artificial generativa para fazer o trabalho pesado, democratizando a análise de dados e economizando horas de digitação.
Por que isso importa para você?
Planilhas continuam sendo o “idioma universal” dos escritórios — do fluxo de caixa do microempreendedor à análise preditiva em multinacionais. Porém, segundo a própria Google, até 80 % do tempo dos analistas é consumido por tarefas repetitivas como limpeza de dados, formatação e caça a erros em fórmulas. Ao delegar essas etapas ao Gemini, o profissional pode se concentrar na parte estratégica: interpretar resultados, tomar decisões e apresentar insights.
Principais recursos já liberados
A Google vem ativando novas funções em ritmo acelerado desde o fim de 2023. Entre as que já chegaram ao usuário comum do Workspace, destacam-se:
- Criação de planilhas a partir de um único prompt: descreva “planejamento de viagem a trabalho em outubro” e o Sheets gera abas, colunas e até fórmulas de cálculo de custos.
- Fill with Gemini: o modelo identifica a intenção da sua tabela e preenche células vazias com dados coerentes, puxando inclusive referências da web.
- Agente Gemini multietapas: basta pedir “formate essa coluna em moeda, crie um gráfico de barras e destaque os maiores valores” para a IA executar tudo em sequência.
- Sheets Canvas (em alpha): transforma a planilha em um app interativo — imagine um kanban de vendas ou um dashboard de estoque que se atualiza em tempo real sem uma única linha de código.
Quanto custa usar?
Para assinantes do Google Workspace, o Gemini chega “de graça” — mas existem limites de uso diário. Quem precisa de volumetria maior pode aderir ao Add-on AI Expanded Access, a US$ 30 por usuário/mês, liberando cotas extras de requisições à IA. É caro? Depende: se o recurso poupar horas de um analista que custa muito mais do que isso, o ROI aparece rápido.
Segurança e confiança: dá para acreditar na IA?
A recorrente preocupação com “alucinações” de IA não passou despercebida. De acordo com Eric Birnbaum, diretor de produto do Google Sheets, cada ação do agente é apresentada em linguagem natural antes da execução, permitindo auditoria humana. Depois, o Gemini devolve um resumo do que foi feito e onde, criando um loop de verificação projetado para minimizar erros — lembrando que erros manuais também acontecem quando o usuário digita apressado.
Gemini vs. Microsoft Copilot: quem leva a melhor?
Enquanto a Microsoft injeta o Copilot no Excel, a Google aposta na integração nativa do Gemini dentro do navegador, sem precisar de software pesado instalado. Para equipes que já vivem no ecossistema Workspace — e principalmente em Chromebooks ou máquinas modestas — o processamento na nuvem evita travamentos. Por outro lado, empresas que dependem de macros avançadas em Excel podem sentir falta de recursos específicos.
Imagem: Matthew Finnegan
Conectores externos e o futuro das planilhas
Na versão alpha, o Google já testa conexões diretas a HubSpot, Salesforce e Mailchimp, abrindo caminho para relatórios que se atualizam sozinhos. A visão de longo prazo, segundo Birnbaum, é transformar a planilha em um “software vivo”: nada de grades estáticas, e sim apps personalizáveis criados em minutos pelo próprio usuário — um mini-CRM, um painel de logística ou um controle de inventário, tudo sem precisar chamar TI.
Vale a pena ficar de olho?
Se você ainda associa planilha a algo tedioso, o Gemini tende a mudar essa percepção. Para freelancers que precisam ganhar tempo, pequenas empresas que não têm analista dedicado ou equipes de dados buscando produtividade, a IA do Sheets surge como aliada. E, convenhamos, aproveitar horas extras para refinar uma apresentação ou até upar naquele seu jogo favorito com uma nova GPU é sempre uma boa ideia.
No fim das contas, a aposta da Google é clara: manter o Sheets como centro do fluxo de trabalho, incorporando IA onde o usuário já está. Resta saber se o concorrente de Redmond responderá à altura — e quem, de fato, entregará a melhor experiência de planilha sem fórmulas para o próximo meio século.
Com informações de Computerworld