Os preços da memória RAM continuam nas alturas, pressionando fabricantes de hardware e consumidores. Agora, a Apple estaria negociando a compra de módulos DRAM e NAND de duas companhias chinesas — ChangXin Memory Technologies (CXMT) e Yangtze Memory Technologies (YMTC) — para driblar a escassez global. A movimentação, revelada pela Bloomberg, pode até baratear futuros iPhones e Macs, mas também esbarra em tensões geopolíticas: ambas as fornecedoras constam em uma lista do Pentágono que associa empresas chinesas ao aparato militar de Pequim.
Por que a RAM ficou tão cara?
Desde 2020, interrupções na cadeia de suprimentos, alta de demanda por PCs e data centers e o avanço para novos nós de fabricação (DDR5) provocaram aumentos de até 40% no custo da memória. Gigantes tradicionais como Samsung, SK Hynix e Micron mantêm produção limitada, forçando marcas a buscarem alternativas.
Quem são CXMT e YMTC?
CXMT é hoje a principal fabricante doméstica de DDR4 e deu os primeiros passos no DDR5 a 17 nm. Já a YMTC foca em NAND 3D para SSDs, competindo com Samsung e Kioxia. Ambas recebem subsídios do governo chinês e figuram, desde 2023, na chamada lista 1260H do Pentágono, que identifica “Empresas Militares Chinesas”. Estar na lista não impede transações comerciais, mas é um passo antes da inclusão na Entity List do Departamento de Comércio, onde as sanções ficam mais rígidas.
O dilema de Cupertino
Fontes próximas afirmam que a Apple tenta convencer autoridades dos EUA de que os novos chips passariam por auditorias rigorosas para eliminar riscos de backdoors ou trojan horses. A preocupação não é infundada: casos como o suposto backdoor em placas Supermicro (2018) mostraram que microcomponentes podem esconder funções maliciosas.
Impacto para empresas e consumidores
CIOs e equipes de compras podem acabar precisando rastrear a origem da memória em cada dispositivo — algo que poucas empresas fazem hoje. Se o governo americano reforçar as restrições e determinar que hardware com chips de CXMT/YMTC não pode ser usado em contratos federais, um MacBook padrão pode virar um problema de conformidade.
Para o consumidor comum, porém, a equação é simples: memória mais barata = dispositivos potencialmente mais baratos ou com mais capacidade. Imagine um futuro MacBook Air de entrada com 16 GB de RAM custando o mesmo que o modelo de 8 GB custa hoje. Nos jogos, mais RAM significa menos gargalos de carregamento e multitarefa fluida; em edição de vídeo, timelines mais responsivas.
Imagem: Evan Schuman C
Competidores de olho
Fabricantes como Lenovo já compram memória chinesa há anos. Se a Apple — vista como referência em qualidade — validar publicamente CXMT e YMTC, outras marcas podem ter sinal verde para adotar a estratégia em mercados onde o impacto político é menor, aumentando ainda mais a oferta e, quem sabe, derrubando os preços globais.
O que vem a seguir?
• Se as negociações avançarem, os primeiros iPhones “Made with Chinese RAM” podem aparecer exclusivamente no mercado chinês, reduzindo o risco de boicotes nos EUA.
• Caso o Departamento de Comércio coloque CXMT/YMTC na Entity List, a Apple precisará de licenças de exportação — lentas e imprevisíveis.
• A pressão pode acelerar projetos internos de memória (Apple Silicon) ou parcerias com fabricantes de países aliados, como a japonesa Kioxia.
No curto prazo, nada muda no balcão da loja. Mas, nos bastidores, a decisão de onde virá cada chip de memória pode determinar o preço do seu próximo notebook — e o nível de tensão entre Washington e Pequim.
Com informações de Computerworld