A Apple abriu a WWDC 2024 prometendo a maior atualização do Siri desde o seu lançamento em 2011. A nova “Siri AI”, parte do pacote Apple Intelligence, está mais rápida, mais contextual e — segundo a própria empresa — 100% desenvolvida em casa. Mas há um detalhe intrigante: ela só chegou a esse nível porque contou, nos bastidores, com a ajuda dos clusters de IA do Google.
O que realmente aconteceu nos bastidores
Craig Federighi, chefe de software da Apple, foi taxativo: “Não usamos os modelos que o Google entrega a seus clientes”. A frase soa dura, mas não contradiz um fato importante: para refinar seus novos Apple Frontier Models (AFM), a equipe de Cupertino recorreu aos resultados gerados pelo Google Gemini. Ou seja, os modelos finais são da Apple, mas foram co-treinados a partir de respostas do Gemini.
Como funciona essa parceria sem misturar os códigos
Na prática, a Apple alimentou seus próprios dados — fotos do iCloud, transcrições do Ditado, histórico de interações do usuário — em modelos proprietários. Depois, comparou as saídas com respostas do Gemini para ajustar precisão, contexto e redução de alucinações. É como ter um professor particular avaliando o dever de casa sem, necessariamente, escrever as respostas por você.
Por dentro dos cinco Apple Frontier Models
Para atender a diferentes cenários, a Apple criou uma família de modelos especializados:
- AFM 3 Core: 3 bilhões de parâmetros, dedicado a tarefas básicas de texto e resumo.
- AFM 3 Core Advanced: 20 bilhões de parâmetros em arquitetura sparse, rodando localmente nos iPhone 17 Pro/Pro Max, iPad Air com M4 e Mac com M3 (12 GB+ de RAM).
- AFM 3 Cloud: o “motor” de baixa latência que vive nos data centers da Apple.
- AFM 3 Cloud Image: voltado a geração e edição de imagens — habilita recursos como Image Playground e edições avançadas no Fotos.
- AFM 3 Cloud Pro: o topo de linha, focado em raciocínio complexo e uso de ferramentas autônomas (agentes).
Cada modelo herda uma base comum e depois é “especializado”, o que acelera atualizações graduais sem retrabalho completo.
E o hardware? Nvidia entra no jogo
Mesmo com os novos servidores Private Cloud Compute, o AFM 3 Cloud Pro exigiu GPUs que, hoje, só a Nvidia entrega em escala. Resultado: parte das requisições mais pesadas viajam até instâncias em nuvem do Google equipadas com placas H100, mantendo criptografia ponta a ponta e verificação de integridade assinada pela Apple. Para o usuário, tudo acontece em milissegundos, sem abrir mão da privacidade — ponto crucial do marketing de Cupertino.
Por que isso importa para você?
• Respostas mais humanas: a Siri passa a entender contexto entre apps. Peça “mostre as fotos do churrasco que o João me mandou ontem no WhatsApp” e ela faz o filtro na hora.
• Produtividade turbinada: resumos de PDFs, e-mails ou páginas da web chegam nativamente, sem instalar extensões.
• Jogos e criadores: a geração de imagens no próprio dispositivo reduz tempo de espera em mockups e thumbnails. E para quem faz streaming no Mac M3, comandos de voz mais assertivos podem virar macros automatizadas durante a live.
Imagem: Jny Evans
Comparativo rápido com rivais
• Samsung Galaxy AI (S24 Ultra) já faz tradução em tempo real, mas depende de servidores externos e carece do modelo on-device de 20 B parâmetros que a Apple encaixou no iPhone.
• Microsoft Copilot+ chega aos PCs com Snapdragon X Elite, porém ainda não oferece integração tão profunda entre hardware, sistema e nuvem privada.
O modelo de negócio por trás da inteligência
Rumores apontam que a Apple pagará cerca de US$ 1 bilhão ao Google pela infraestrutura, com cobrança variável baseada no uso — algo que pode ser repassado, de forma discreta, para os novos planos do iCloud+. Para o Google, é uma forma de monetizar sua massiva (e cara) rede de IA. Para a Apple, é o custo de permanecer no topo sem sacrificar o mantra de privacidade.
Próximos passos
Federighi adiantou que mais idiomas (incluindo português brasileiro) chegarão ao Siri AI em 2025, em paralelo à expansão dos Apple Silicon de próxima geração. Caso você cogite trocar de iPhone ou Mac, vale observar que os dispositivos com menos de 8 GB de RAM não rodarão boa parte dos recursos on-device — um detalhe que pode pesar na decisão de upgrade.
No fim das contas, a Apple conseguiu “pular etapas” na corrida da IA sem abrir mão do controle total sobre experiência e dados. E, se você já vive no ecossistema da maçã, a grande vencedora dessa união improvável com o Google pode ser — spoiler — a sua produtividade diária.
Com informações de Computerworld