Um simples post no Reddit bastou para viralizar um projeto que parece ter saído direto do universo de Fallout: um computador funcional montado com peças descartadas, uma TV CRT portátil de 5 polegadas em preto e branco e um alto-falante improvisado dentro de uma lata de cerveja. O responsável, identificado apenas pelo nickname HamblinC, garante que a motivação foi “apenas colocar para funcionar o que tinha jogado na gaveta”. O resultado, no entanto, joga luz sobre três grandes temas atuais: reaproveitamento de hardware, cultura maker e, claro, a eterna paixão por soluções DIY (faça você mesmo).
Por dentro do “PC Fallout”: principais componentes
O coração da máquina é um Raspberry Pi 4, plaquinha que mede cerca de 8,5 × 5,6 cm, mas que entrega CPU quad-core Cortex-A72 de até 1,5 GHz, 4 GB de RAM e conectividade integrada. Em condições normais, você ligaria o Pi a um monitor HDMI moderno; aqui, porém, a saída digital foi convertida em RF (radiofrequência) para conversar com a pequena TV CRT dos anos 1990.
O caminho do sinal é engenhoso: HDMI → conversor RF → cabo coaxial → adaptador P2 de 3,5 mm → entrada de antena da TV. O vídeo é exibido em preto e branco, mas com surpreendentemente pouca perda de nitidez para uma tela analógica desse porte.
O som sai de um driver de 3 W embutido numa lata de cerveja vazia. O criador forrou o interior com algodão para reduzir ressonâncias – truque conhecido de quem constrói caixas acústicas DIY. Ele explica: “Latas de cerveja são as melhores caixas de som! Coloque um pouco de algodão dentro e pronto”.
Alimentação: bateria de ferramenta elétrica
Para manter o setup realmente portátil, o projetista acoplou uma bateria Makita de 18 V – o mesmo modelo usado em furadeiras e parafusadeiras. Módulos buck-converter com display LED regulam a tensão para os 5 V exigidos pelo Raspberry Pi e para os 12 V do circuito da TV. Tudo é controlado por chaves alavanca protegidas, conferindo um visual de central de comando retrô.
Perigo real: o tubo de raios catódicos exposto
A comunidade logo apontou o ponto fraco do projeto: segurança. Tubos CRT funcionam com alta tensão (até 25 kV) e atuam como grandes capacitores, retendo carga mesmo semanas depois de desligados. Manusear o pescoço do tubo sem descarregar adequadamente pode ser fatal. Técnicos recomendam sempre aterrar o terminal do anodo antes de qualquer intervenção. Se você pensa em tentar algo parecido, invista primeiro em conhecimento sobre descarregamento de CRT.
O que dá para rodar nesse mini-PC?
Apesar do ar pós-apocalíptico, o hardware roda qualquer distribuição Linux compatível com Raspberry Pi. RetroPie, Recalbox ou até um emulador de DOS casam perfeitamente com a estética vintage. O gargalo é a resolução da TV (em torno de 320×240 px), mas títulos 8-bit e 16-bit ficam incrivelmente à vontade nesse formato.
Imagem: William R
Comparando com opções comerciais
Quem busca algo pronto encontra no mercado mini-PCs como o Raspberry Pi 400 (já com teclado integrado) ou sticks HDMI como o Amazon Fire TV Stick que, com adaptações, rodam RetroPie via sideload. A maioria usa telas LCD ou OLED modernas, consome menos e dispensa o trabalho de converter sinal de vídeo. Por outro lado, nenhum modelo entrega a nostalgia pura de um tubo catódico real.
Por que esse tipo de projeto importa?
1. Upcycling e sustentabilidade: reaproveitar sucata eletrônica reduz lixo tecnológico.
2. Aprendizado prático: converter HDMI em RF, trabalhar com tensões diferentes e otimizar acústica de uma lata exigem conhecimentos que vão além do “plug-and-play”.
3. Inspiração maker: projetos assim lembram que a barreira de entrada para construir o próprio computador nunca foi tão baixa – muito do que você precisa está a poucos cliques de distância em marketplaces como a Amazon.
Conclusão
O “PC Fallout” não é o computador mais prático nem o mais potente do mundo. Ainda assim, ele simboliza o espírito maker: transformar sucata em algo funcional e, de quebra, esteticamente marcante. Se você tem um Raspberry Pi encostado, teclados mecânicos compactos ou mesmo aquela TV analógica esquecida no armário, este projeto mostra que dá para criar algo único – basta vontade, alguns conversores de tensão e muita criatividade.
Com informações de Hardware.com.br