A história da tecnologia é cheia de “e se?”. Um dos mais saborosos completa 20 anos: em 2002, a ATI Technologies colocou no mercado a Radeon 9700 PRO, uma placa de vídeo tão superior à concorrente GeForce FX 5800 Ultra que analistas da época apostaram na falência da NVIDIA. Bastava um movimento simples — reduzir agressivamente o preço — para a canadense sufocar a rival. Mas a ATI hesitou. O resultado? A NVIDIA reagiu, virou o jogo com CUDA em 2006 e hoje domina o mercado de GPUs para inteligência artificial. Entenda como um único vacilo mudou o rumo de toda a indústria — e, de quebra, impacta a escolha da sua próxima placa de vídeo.
Da glória ao risco: como a NVIDIA tropeçou em 2002
Fundada em 1993 por Jensen Huang, Curtis Priem e Chris Malachowsky, a NVIDIA sobreviveu a um início turbulento com a ajuda da SEGA, que injetou US$ 5 milhões para viabilizar o RIVA 128. O sucesso durou até o início dos anos 2000, quando a compra da 3dfx trouxe 100 engenheiros e um problemão: o recém‐batizado projeto NV30 atrasou, ficou caro e perdeu acesso à documentação do Direct3D 9 por um impasse contratual com a Microsoft.
Internamente, times de hardware e software pararam de conversar. Recursos como fog shaders foram removidos sem aviso, enquanto a concorrente já entregava anti-aliasing 4× pronto para o consumidor. Resultado: a GeForce FX 5800 Ultra chegou às lojas cinco meses atrasada, mais ruidosa (o lendário cooler “Dustbuster”), mais cara e, nos jogos certos, até 40% mais lenta que o modelo topo de linha da ATI.
Radeon 9700 PRO: força bruta e eficiência cirúrgica
Do outro lado, a ATI havia comprado a ArtX por US$ 400 milhões em 2000. A aquisição trouxe veteranos do Nintendo 64 e do GameCube, que assinaram o projeto R300. O resultado foi a Radeon 9700 PRO, lançada em agosto de 2002, na época de volta às aulas nos EUA.
Principais vantagens técnicas do R300 (comparativo direto com o NV30):
- 8 pipelines de pixel (NV30 tinha 4×2) — dobro de pixels processados por ciclo.
- Interface de memória 256-bit DDR @ 620 MHz efetivos (~19,8 GB/s) contra 128-bit DDR2 @ 1 GHz (~16 GB/s).
- Suporte completo a DirectX 9, com melhor implementação de shader model.
- Anti-aliasing 4× com impacto mínimo de performance e filtros de textura superiores.
- Consumo e ruído bem menores — nada de “turbina de avião” no gabinete.
Nos benchmarks de Quake III e Unreal Tournament 2003, a 9700 PRO exibia entre 30% e 50% mais quadros por segundo em High Quality 1600×1200, algo impensável para a época. Para o gamer, isso se traduzia em partidas mais fluidas, cores mais vivas (renderização 24-bit) e, principalmente, a possibilidade de ativar todos os filtros visuais sem quedas bruscas de FPS.
O momento da virada que não aconteceu
Com um chip enxuto e custos mais baixos, a ATI tinha margem para baixar o preço dos US$ 399 originais. Se levasse a 9700 PRO a US$ 299, por exemplo, a GeForce FX — já vendida com desconto nas prateleiras — teria virado estoque encalhado. Analistas calcularam que a NVIDIA, naquela virada de trimestre, perderia 65% de participação de mercado para 35%, nível que coloca qualquer empresa em alerta vermelho de caixa.
Imagem: William R
Mas a direção da ATI manteve a tabela alinhada à rival. A explicação extraoficial? Preocupação com a receita de curto prazo e medo de represálias futuras. Para Dwight Diercks, veterano da NVIDIA que acompanhou o drama, se Jensen Huang estivesse no comando da ATI “teria colocado a NVIDIA fora do negócio”.
Como isso afeta o consumidor de 2023 em diante
Quatro anos depois, em 2006, a AMD comprou a ATI por US$ 5,4 bilhões. No mesmo ano, a NVIDIA apresentou o CUDA, estratégia que pavimentou o domínio atual em IA e data centers — segmento no qual as margens chegam a 80% em alguns contratos. Para o usuário doméstico, isso explica por que a NVIDIA mantém preços elevados nas linhas GeForce RTX, enquanto a AMD briga por valor agregado com as atuais Radeon RX 7000.
Se você procura ray tracing maduro e ecossistema robusto de IA, a família GeForce leva vantagem direta de uma cultura de inovação forjada nesses momentos de crise. Já quem prioriza custo por quadro e eficiência energética pode se beneficiar do DNA de engenharia “enxuta” que fez a fama da antiga ATI — hoje visível em modelos como a RX 7600 ou a poderosa RX 7900 XTX.
No fim das contas, o mercado só é vibrante porque a concorrência sobreviveu. A hesitação da ATI em 2002 permitiu o contra-ataque da NVIDIA e moldou o cenário em que escolhemos nossas GPUs duas décadas depois. Fica a lição: em tecnologia, desempenho bruto importa — mas decisões de negócio podem valer ainda mais quadros por segundo.
Com informações de Hardware.com.br