A Samsung Electronics acaba de carimbar o passaporte para um grupo ultrasseleto: com valor de mercado superior a US$ 1 trilhão, a sul-coreana tornou-se apenas a segunda empresa asiática a atingir essa cifra, atrás da taiwanesa TSMC. O feito veio depois de uma disparada de até 14% nas ações durante o pregão de quarta-feira (6) em Seul, empurrada pela fome mundial por chips de memória dedicados à inteligência artificial (IA).
Por que a Samsung vale US$ 1 trilhão agora?
O rali começou logo na abertura do mercado: por volta das 9h52 no horário local, a capitalização ultrapassava 1 500 trilhões de wons (cerca de US$ 1,03 trilhão ou R$ 5,1 trilhões). O impulso veio diretamente da divisão Device Solutions, responsável por 95% do lucro operacional no primeiro trimestre de 2026, graças aos chips de memória de alta largura de banda, ou HBM.
Para dimensionar o salto: a companhia registrou receita recorde de 133,9 trilhões de wons (US$ 92 bi) e lucro operacional de 57,2 trilhões de wons (US$ 39,3 bi), oito vezes superior ao mesmo período de 2025. Em outras palavras, um trimestre rendeu mais do que todo o ano passado.
HBM4, DRAM e a corrida pela IA
O coração da arrancada está na produção em massa do HBM4, sexta geração de memória que a empresa iniciou em fevereiro. Esses chips são peça-chave em GPUs como as que a NVIDIA prepara para a arquitetura Vera Rubin, voltada a grandes modelos de IA generativa. Como novas fábricas levam até três anos para entrar em operação, a oferta segue limitada, mantendo preços elevados e margens gordinhas.
Enquanto isso, a SK Hynix domina cerca de 55% do mercado de HBM, deixando a Samsung com 25%. A diferença, porém, vem sendo compensada pela alta histórica nas margens da DRAM “comum”, aquela que equipa de notebooks a consoles. Analistas apontam que a lucratividade da DRAM tradicional ultrapassou temporariamente a do próprio HBM — algo raríssimo no setor.
Concorrência acirrada: SK Hynix, TSMC e a corrida aos 2 nm
Não é só memória que está no radar. Reportagem da Bloomberg revelou que a Apple sondou Samsung e Intel para fabricar chips em solo americano, numa tentativa de reduzir dependência da TSMC. Caso avance, o acordo colocaria em evidência o nó de 2 nm da Samsung Foundry — ainda um ponto fraco frente à rival taiwanesa, cuja capacidade futura já está quase 100% reservada.
O que muda para quem joga e monta PCs em 2026
Se você está de olho em placas de vídeo, SSDs ou kits de memória DDR5 na Amazon, as próximas semanas devem ser de atenção:
- Escassez prolongada de HBM pode pressionar novamente o preço de GPUs topo de linha (RTX 5000 ou Radeon de próxima geração).
- Já a DRAM tradicional vive um ciclo de margens altas para fabricantes, mas há sinal de estabilização para o consumidor a partir do segundo semestre se novas remessas chegarem ao varejo.
- No segmento de SSDs NVMe, a Samsung é líder em NAND; a mesma falta de capacidade que favorece o lucro pode manter os preços estáveis, sem a queda agressiva vista em anos anteriores.
Resumindo: boas promoções de memória e armazenamento devem aparecer, mas GPUs podem continuar salgadas até o mercado de HBM normalizar.
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Divisão mobile patina: o paradoxo Galaxy
Curiosamente, os smartphones Galaxy quase não mexeram o ponteiro. O lucro operacional da divisão Mobile Experience ficou perto de zero, corroído pelo encarecimento de componentes — os mesmos chips de memória que hoje turbinam o caixa corporativo. Mesmo com pré-vendas em dois dígitos para a linha Galaxy S26, as margens encolheram.
Greve à vista e outros desafios
Internamente, mais de 75 mil funcionários estudam cruzar os braços reivindicando 15% do lucro operacional anual. Uma paralisação poderia afetar fábricas críticas ainda no segundo trimestre, justamente quando a demanda de IA está no pico.
Samsung entra no top 13 das empresas mais valiosas
Com o novo patamar, a Samsung junta-se a NVIDIA, Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta, Saudi Aramco, Broadcom, Tesla, Walmart, Berkshire Hathaway e TSMC no clube do trilhão. É a 13ª companhia a cruzar a marca em toda a história do mercado financeiro.
A façanha confirma uma mudança de paradigma: a Samsung de 2026 vale mais por abastecer data centers com DRAM e HBM do que por vender celulares a consumidores finais. O próximo passo? Traduzir a vantagem tecnológica em ganho de participação frente à SK Hynix, segurar custos na linha Galaxy e, quem sabe, fechar um contrato de produção com a Apple que pode redefinir o equilíbrio de poder nos semicondutores.
No fim das contas, quem monta PC ou quer atualizar o setup de jogos deve acompanhar de perto esse tabuleiro. Afinal, o preço dos componentes que colocamos no carrinho hoje é decidido, em grande parte, pelo que acontece dentro das fábricas gigantes da Samsung amanhã.
Com informações de Mundo Conectado