A corrida por inteligência artificial abriu um buraco no calendário da indústria de semicondutores. Samsung e SK hynix, que ao lado da Micron respondem por mais de 90 % da produção global de DRAM, avisaram que já não têm memória HBM (High Bandwidth Memory) suficiente para honrar todos os pedidos até 2027. Resultado: as primeiras levas de chips sequer saíram do forno e já têm dono — e não estamos falando de mera jogada para inflar ações, mas de uma demanda real que ultrapassa a capacidade fabril planejada para os próximos três anos.
Demanda de IA devora a produção antes mesmo da expansão
Segundo executivos das duas gigantes sul-coreanas, parte dos clientes finalizou reservas de HBM com entrega para o ano que vem. O presidente do SK Group, Chey Tae-won, foi ainda mais além: a pressão pode se estender até 2030, com déficit acima de 20 % mesmo se novos complexos industriais começarem a ser erguidos hoje.
O principal culpado tem nome e sobrenome: datacenters de IA. Cada GPU como a Nvidia H100 ou MI300X da AMD carrega pilhas de HBM coladas ao silício para alimentar modelos de linguagem e imagem que consomem centenas de GB por segundo. Com a explosão de novos serviços de IA generativa, os pedidos dispararam — e incluíram pré-compra de gerações futuras, como a HBM4 destinada à plataforma Nvidia Vera Rubin.
HBM ≠ DRAM comum: por que não é só ligar mais máquinas
HBM é DRAM empilhada verticalmente em até oito camadas (a HBM4 poderá chegar a doze) e conectada ao processador por interposers de silício. O processo envolve soldagem micrométrica, TSVs (vias através do silício) e encapsulamento avançado. Em outras palavras, não dá para converter uma fábrica de DDR5 em HBM da noite para o dia. O ramp-up completo leva anos e exige equipamentos de litografia e empacotamento que custam bilhões de dólares.
Enquanto isso, parte da linha produtiva sai da DRAM tradicional para dar lugar à HBM, apertando ainda mais oferta de módulos DDR4/DDR5 usados em PCs, servidores convencionais e até consoles.
Efeito cascata: DDR5, SSD corporativo e até preços de placa de vídeo
Com margens mais altas em HBM, fabricantes naturalmente priorizam chips de alto valor. O reflexo já aparece no mercado spot de memória, onde os preços de DDR5 subiram mais de 15 % desde o início do ano. Se você pensa em atualizar o PC gamer ou montar um novo workstation, o alerta é claro: componentes baseados em DRAM podem ficar mais caros até que a oferta volte a acompanhar a procura.
Na mesma linha, GPUs topo de linha usadas para IA e para jogos em 4K podem enfrentar outro ciclo de escassez, repetindo o cenário visto durante a pandemia. Ainda que placas gamers usem predominantemente GDDR6(X), a lógica de realocação de wafers é a mesma: menos DRAM disponível, custo maior por chip.
Imagem: William R
Quanto lucro cabe em um megabit?
O aperto virou mina de ouro para as duas companhias. A divisão de semicondutores da Samsung registrou lucro operacional de 53,7 trilhões de won no primeiro trimestre de 2026 — 94 % do lucro total da corporação. Já a SK hynix quebrou a barreira dos 50 trilhões de won em receita trimestral, com margens operacionais de 72 %. Boa parte desse salto vem justamente da HBM represada.
Investimentos bilionários na China, mas o alívio não será imediato
Para tentar fechar a conta, Samsung destinou 465,4 bi de won para ampliar a planta de Xi’an e confirmou produção em massa de HBM4 em fevereiro. A SK hynix, por sua vez, injetou quase 1 tri de won em Wuxi e Dalian. Mesmo assim, os próprios executivos apostam em pelo menos quatro a cinco anos para que a nova capacidade faça diferença perceptível.
Existe plano B? Tecnologias que podem aliviar o gargalo
Nos laboratórios, alternativas como 3D X-DRAM e ZAM (Z-Angle Memory) prometem melhor eficiência energética e densidade além do HBM atual. Contudo, nenhuma delas chegará a volume antes de 2028. Até lá, a recomendação para integradores e entusiastas é planejar compras com antecedência e acompanhar estoques de perto — sobretudo se o setup depender de grandes quantidades de memória ou de GPUs com HBM integrada.
O que isso significa para você agora?
- Quem trabalha com IA ou renderização pesada deve considerar ampliar a capacidade atual antes que novos aumentos de preço entrem em vigor.
- Para gamers, a oferta de placas de vídeo high-end pode voltar a ficar pressionada; monitores, teclados e mouses não serão afetados, mas o coração gráfico do PC sim.
- Servidores caseiros e NAS podem sentir impacto no preço de módulos DDR5 e SSDs corporativos de alta capacidade.
Com a “corrida do ouro” da inteligência artificial, a escassez de HBM mostra que o limite agora não é software nem silício puro e simples, mas a capacidade física de empilhar memória na velocidade que os modelos de IA exigem. Quem depende de alto desempenho fará bem em monitorar de perto esse cronograma.
Com informações de Hardware.com.br