Antes de Metal Gear Solid transformar Hideo Kojima em superstar da indústria, o designer japonês já havia lançado uma aventura tão ambiciosa quanto obscura: Policenauts. O game mistura investigação policial, drama de ficção científica e reflexões filosóficas sobre o futuro da humanidade — ingredientes que parecem feitos sob medida para o streaming em 2024, mas que chegaram ao mercado em 1994, ainda na era dos disquetes e dos controles de seis botões.
Um policial à deriva por 25 anos
A trama começa em 2013, quando o detetive-astronauta Jonathan Ingram sofre um acidente durante um teste de traje espacial e fica vagando pelo cosmo. Graças a um sistema de criogenia embutido, ele desperta apenas em 2040 — praticamente sem ter envelhecido. De volta a Los Angeles, Jonathan se vê forçado a investigar um novo velho mundo em que as colônias espaciais já são realidade, mas os dramas humanos continuam os mesmos.
Para Kojima, o “beyond” do título da estação Beyond Coast não é só a distância entre Terra e espaço; é também o hiato de 25 anos que separa Jonathan de tudo o que ama. O autor reforçou a mensagem numa entrevista de 1996: “Mesmo que a viagem no tempo se torne possível, relações humanas ainda são o cerne da sociedade.”
Da manchete de jornal ao roteiro de jogo
Entre 1990 e 1993, três temas ocuparam os noticiários japoneses: a ida do jornalista Toyohiro Akiyama à Mir, debates sobre transplante de órgãos e uma onda de xenofobia desencadeada pelo filme “Rising Sun”. Kojima costurou esses fatos no plot de Policenauts: o corpo humano debilitado pela gravidade zero cria demanda por órgãos, abrindo espaço para um mercado negro interplanetário. O resultado é um thriller digno de Blade Runner — só que com pistolas de luz e menus suspensos.
Quatro versões, zero localização oficial
O desenvolvimento levou seis longos anos e rendeu quatro edições:
- NEC PC-9821 (1994) – a estreia, em disquetes e com estáticas em pixel art.
- 3DO (1995) – animação a 24 fps e áudio de 22 kHz.
- PlayStation (1996) – áudio a 44 kHz, mas cortes em algumas falas.
- Sega Saturn (1996) – considerada definitiva por Kojima: vídeo de 24 fps, diálogos restaurados e suporte à light gun.
Uma caixa com arte pronta para o Saturn chegou a aparecer em catálogos norte-americanos, mas a Konami cancelou a localização. Rumores apontam o baixo desempenho comercial de Snatcher no Ocidente e a febre por jogos 3D como fatores decisivos.
Por que uma pistola de luz em um jogo de pointer?
Ao contrário de arcades como Lethal Enforcers, em que os inimigos são mero alvo, Policenauts faz você viver horas de diálogo antes do confronto contra o antagonista Redwood. “Queria que o disparo tivesse peso emocional”, explicou Kojima. Se você ainda possui uma Virtua Gun original ou pretende adquirir uma light gun USB compatível com TVs modernas, a versão de Saturn é a que melhor captura essa intenção.
Produção de anime no videogame
Para as versões de console, o estúdio AIC (de Irresponsible Captain Tylor) substituiu os quadros estáticos por animações cel-shaded. A direção de arte ficou a cargo de Youji Shinkawa, que mais tarde assinaria o visual de Metal Gear Solid e Death Stranding. Se você curte colecionar artbooks, o volume encadernado presente na edição Saturn tornou-se item raro em leilões internacionais — e um bom termômetro do carinho que a comunidade retro ainda nutre pelo título.
Jazz fusion, legendas inclusivas e um glossário de 100 termos
A trilha de Kazuki Muraoka bebeu do jazz fusion de bandas como T-Square. Já as legendas, presentes em todas as plataformas, nasceram depois que um fã com deficiência auditiva enviou uma carta a Kojima pedindo a inclusão de texto. O diretor atendeu prontamente: “No fim, escolho o que deixa os jogadores felizes”.
Imagem: William R
Dentro do código, um glossário com mais de 100 verbetes detalha doenças exclusivas da gravidade zero, leis espaciais e até a FOXHOUND, insinuando um universo compartilhado anos antes de Metal Gear Solid.
Onde jogar hoje (legal e “alternativo”)
Sem lançamento oficial em inglês, a comunidade assumiu o volante. O grupo Junker HQ publicou um patch completo de tradução para PlayStation em 2009 e, em 2016, para Sega Saturn. Você precisa:
- Uma ISO da versão japonesa.
- O patch fan-traduzido (procure “Policenauts English Patch Junker HQ”).
- Um emulador como DuckStation ou Mednafen, ou ainda um PlayStation original modificado com ODE como o XStation.
Dica de hardware: placas de captura HDMI como a Elgato HD60 X facilitam gravar ou streamar sua viagem retro — excelente para quem quer criar conteúdo e, de quebra, monetizar no Twitch ou YouTube.
A última obra “100% criativa” de Kojima
Em texto publicado no site da Konami, Kojima chamou Policenauts de “minha obra de parto mais difícil”. Entre mudanças de departamento, o colapso da URSS e o terremoto de Kobe, o designer se dedicou exclusivamente ao jogo. Depois disso, assumiu papéis de produtor e gestor, jamais repetindo o luxo de olhar apenas para a criação.
Vale revisitar em 2024?
Para quem curte aventuras narrativas como Disco Elysium ou Return of the Obra Dinn, Policenauts continua surpreendentemente atual. O debate sobre ética médica em ambientes extremos — tema quente agora com missões para Marte — faz o jogo ressoar ainda mais. Se você coleciona hardware retro ou quer testar sua nova GPU em shaders de upscaling, emular Policenauts em 4K é um passeio obrigatório pela história dos videogames.
Três décadas depois, o “jogo esquecido de Kojima” segue inspirando fãs, modders e desenvolvedores. Talvez seja hora de a Konami finalmente atender o apelo da comunidade e lançar uma remasterização oficial. Até lá, vale separar o mouse — ou a light gun — e mergulhar nesse noir espacial que ficou à frente do seu tempo.
Com informações de Hardware.com.br