Imagine entregar um supercomputador do tamanho de uma mala para um laboratório desconhecido chamado OpenAI em 2016. Foi exatamente isso que Jensen Huang, CEO da NVIDIA, fez — e dentro da máquina havia um ingrediente decisivo: o CUDA Toolkit. Passados 20 anos desde a primeira versão, essa caixa de ferramentas de programação continua sendo o motor silencioso por trás de tudo, de chatbots como o ChatGPT a placas de vídeo para gamers e robôs em fábricas.
Por que você deve ligar para o CUDA se só quer jogar ou editar vídeos?
O CUDA é o que permite que as GPUs da NVIDIA usem todo o seu poder de processamento paralelo. Na prática, funções como DLSS 3, Ray Tracing ou aceleração em softwares de edição existem porque a camada de software conversa de forma otimizada com o hardware. Resultado: mais quadros por segundo, renderização mais rápida e menor consumo energético — tudo em benefício direto de quem compra uma RTX 4060 Ti ou uma RTX 4090 listada hoje na Amazon.
“A engenharia mais bem-sucedida é invisível” — Stephen Jones
Quem afirma é Stephen Jones, arquiteto chefe do CUDA, que conversou com a Computerworld. Ele entrou na equipe logo após o lançamento do CUDA 1.0, em 2007, e testemunhou usos que jamais imaginou: “Quando você cria algo e as pessoas fazem coisas que você nunca pensou, esse é o verdadeiro prêmio da engenharia”, diz.
Uma curiosidade: na primeira semana de Jones na NVIDIA, ainda nem existia um simples printf para depuração dentro do ambiente. Ele mesmo escreveu a função, que se tornaria indispensável para milhares de desenvolvedores.
De nicho acadêmico à base da IA moderna
O ponto de virada foi o AlexNet, em 2012, quando uma rede neural bateu recordes em reconhecimento de imagens. Internamente, a NVIDIA já desenvolvia a biblioteca cuDNN, focada em IA, mas a vitória de AlexNet acelerou tudo. De lá para cá, a empresa mantém uma filosofia clara: “Nada de ferramentas de uso único; precisamos de soluções que sirvam para qualquer coisa, do supercomputador ao robô de linha de produção”, explica Jones.
Hardware e software de mãos dadas
Um chip gráfico leva cerca de quatro anos para ficar pronto, e metade da rotina de Jones é dialogar com a equipe de silício. Essa co-criação garante que cada nova arquitetura — da atual Ada Lovelace à futura Rubin — chegue ao mercado já otimizada pelo CUDA. “Não existe ‘faz o hardware e depois adaptamos’. Tudo é pensado junto”, diz ele.
É assim que recursos como Tensors Cores ganham vida: primeiro, a equipe de software identifica gargalos (por exemplo, multiplicação de matrizes para IA); depois, o time de hardware projeta unidades especializadas. O resultado aparece no desempenho: enquanto a AMD aposta no ROCm e a Intel no oneAPI, a NVIDIA segue liderando benchmarks de IA e games graças a essa sinergia.
Menos especificações, mais resultados para o usuário
A visão de Jones é simples: “Se conseguimos fazer com que alguém escreva menos código para chegar ao GPU, já vencemos”. Por isso, as últimas versões do CUDA incluem camadas de alto nível, como CUDA Graphs, que automatizam agendamentos complexos. Para o consumidor, isso se traduz em:
Imagem: Agam Shah Seni
- Tempo menor de render em softwares como Blender ou DaVinci Resolve;
- Atualizações de drivers que realmente entregam ganhos reais em FPS;
- Eco-sistema robusto de plugins e mods que tiram proveito do AI Upscaling.
O ciclo de adoção está encurtando
Jones admite que grandes corporações costumavam demorar anos para adotar novas APIs, mas a corrida da IA mudou o jogo. “Empresas já consolidadas, antes avessas a riscos, hoje migram mais rápido porque sabem que cada porcento de eficiência conta”, observa. A NVIDIA também usa IA internamente para escrever e testar código, um reflexo de como as próprias ferramentas aceleram sua evolução.
Do laboratório quântico ao seu carrinho de compras
Talvez ainda falte tempo para termos um PC quântico em casa, mas pesquisadores já desenvolvem algoritmos quânticos simulados em GPUs NVIDIA, usando — adivinhe — CUDA. Quando o hardware quântico chegar, o software estará pronto. Para quem compra hoje, isso significa investir em um ecossistema que já antecipa o futuro.
Compare: uma RTX 4070 Super com suporte pleno ao CUDA 12.x tende a receber atualizações focadas em IA generativa por anos, enquanto modelos concorrentes podem depender de implementações de terceiros.
Próxima parada: mais precisão (ou menos?)
Se a Lei de Moore já não entrega saltos gigantes a cada geração, a saída é otimizar bit a bit. Reduzir a precisão dos cálculos — de 32 para 16, depois para 8 ou até 4 bits — virou prática comum em IA. O CUDA acompanha essa tendência, adicionando novas rotinas de baixo consumo que mantêm a acurácia sem sacrificar desempenho. “Estamos esbarrando nas leis da física, mas ainda há muito espaço para inovação”, conclui Jones.
Para um estudante de computação, um criador de conteúdo ou um gamer entusiasta, os próximos 10 anos prometem ser “selvagens”, nas palavras do arquiteto. E tudo indica que o coração dessa revolução continuará batendo dentro de uma placa NVIDIA — alimentada, é claro, pelo bom e velho CUDA.
Com informações de Computerworld