Baixar 1,5 GB da Steam e começar a jogar em poucos minutos é tão automático que a gente nem pensa mais no processo. Mas o criador de conteúdo DocJade resolveu testar os limites da paciência (e do hardware) ao voltar 30 anos no tempo: ele instalou o aclamado Factorio usando nada menos que 1.250 disquetes de 3,5″. O resultado? Mais de uma semana trocando mídias, milhares de cliques no botão de ejetar e lições preciosas sobre a evolução do armazenamento — algo que todo gamer deveria levar em conta antes de escolher o próximo SSD ou HD externo.
De download instantâneo a maratona física
Para ter ideia do contraste, uma conexão de fibra de 500 Mb/s leva cerca de 30 segundos para baixar os 1,5 GB de Factorio. No “setup” de DocJade, cada disquete de 1,44 MB era preenchido manualmente, inserido no drive USB e validado. Foram cerca de 9 horas de jogo após mais de 168 horas de instalação. Se compararmos com um SSD NVMe gen4, que bate fácil 7.000 MB/s, a discrepância beira o absurdo: o mesmo volume de dados seria gravado em 0,2 segundos.
Fluster: o sistema de arquivos feito sob medida
Disquetes não foram pensados para lidar com milhares de fragmentos de dados modernos. Para driblar esse gargalo, o youtuber criou o Fluster, sistema de arquivos escrito em Rust e liberado no GitHub. Cada disco foi particionado em blocos de 512 bytes, com 4 bytes extras para checksum CRC, totalizando 2.880 blocos por unidade. Na prática, o Fluster permite endereçar até 65.536 disquetes (cerca de 90 GB), mas exige interação humana constante — algo impensável para qualquer cenário fora de um experimento histórico.
Cache triplo para sobreviver às trocas
Nos primeiros testes, gravar 1.000 arquivos provocava quase meio milhão de trocas de mídia. Depois de implementar um cache de três camadas, DocJade reduziu o número para pouco mais de 1.500 trocas. Ainda assim, estamos falando de centenas de idas e vindas ao drive. Para quem se incomoda quando tem que desmontar um SSD externo antes de puxar o cabo, imagine repetir esse ritual 1.500 vezes.
Quando o Windows não é suficiente
O Windows 11 nem reconhece drive de disquete nativamente em 2024, então DocJade recorreu ao WSL 2 (Windows Subsystem for Linux), recompilou o kernel com suporte a floppy e ainda usou USB/IP para passar o drive diretamente ao subsistema. Virtualização? Esquece: o jogo rodava a 2 FPS em VM. Esse emaranhado técnico mostra por que a compatibilidade é ponto-chave na escolha de periféricos modernos, seja um kit gamer com teclas hot-swap, seja uma GPU recém-lançada.
Por que escolher Factorio
Além de gostar do game, DocJade teve um motivo estratégico: Factorio carrega quase tudo na RAM ao iniciar, reduzindo o ping-pong com o disquete durante a jogatina. A exceção foram os efeitos sonoros, que exigiam o disco certo para tocar — um lembrete de como a latência de um disco mecânico (ou pior, magnético) pode estragar a imersão. Não por acaso, quem joga competitivo hoje prioriza SSDs NVMe ou pelo menos SATA III para evitar stutter.
O legado dos disquetes versus a realidade atual
O experimento de DocJade serve como cápsula do tempo:
Imagem: William R
- Velocidade de leitura/gravação: 500 KB/s por disquete contra até 7.000 MB/s em um NVMe Gen4.
- Densidade: 1,44 MB por disco contra 8 TB em um SSD externo USB-C.
- Durabilidade: mídias magnéticas degradam em anos; SSDs de flash TLC chegam a centenas de terabytes written.
Em resumo, quem ainda tem um HDD de 5.400 RPM na máquina principal está tecnicamente mais perto do disquete do que de um SSD topo de linha.
O que fica para o entusiasta de hardware
Para além da diversão vintage, a saga reafirma a importância de investir em um bom sistema de armazenamento. Se você lida com mods, streaming ou gravação de conteúdo, ter um SSD NVMe aliado a um backup em HD de alta capacidade faz toda a diferença. E caso queira reviver a nostalgia, drives de disquete USB ainda existem no mercado, mas prepare-se para uma experiência bem mais lenta do que aquele novo PCIe 4.0 de 2 TB que ronda a sua lista de desejos.
No fim, DocJade zerou o jogo em nove horas, mas ganhou uma semana de exercício físico e uma história que ilustra, como poucas, o salto tecnológico que o armazenamento viveu desde os anos 80.
Com informações de Hardware.com.br