Quando você liga a sua smart TV e vê aquele carrossel de recomendações logo na tela inicial, poucas vezes se questiona quem decide o que aparece ali. Pois é justamente esse “poder do controle remoto” que levou algumas das maiores emissoras europeias a acionar formalmente Google, Amazon e Samsung em Bruxelas. O grupo quer que as plataformas Tizen OS, Android TV/Google TV e Fire TV OS sejam classificadas como gatekeepers pela Lei de Mercados Digitais (DMA). Caso a Comissão Europeia concorde, as regras podem afetar desde a forma como você navega pelos aplicativos até a oferta de futuros dispositivos como Fire TV Stick, Chromecast e as poderosas QLED da Samsung.
O que está em jogo: 60 % das TVs conectadas na Europa
Segundo a Association of Commercial Television (ACT), que reúne pesos-pesados como Disney, Warner Bros. Discovery e Paramount, as três plataformas respondem juntas por 60 % do parque europeu de televisores conectados:
- Tizen OS (Samsung): 24 % de market share
- Android TV / Google TV (Google): 23 %
- Fire TV OS (Amazon): 13 %
Números que, na prática, garantem às big techs a capacidade de “puxar” a audiência para seus próprios serviços — YouTube, Prime Video ou Samsung TV Plus — enquanto aplicativos concorrentes ficam escondidos a alguns cliques de distância. Para as emissoras, isso é “autofavorecimento”; para o consumidor, pode ser a diferença entre descobrir um novo filme no Disney+ ou ficar preso ao feed infinito do YouTube.
DMA em ação: multas de até 10 % do faturamento global
Anunciada em 2023, a Lei de Mercados Digitais impõe quatro obrigações principais aos designados gatekeepers:
- Transparência nas recomendações — nada de empurrar o próprio app para o topo.
- Proibição de discriminação — serviços rivais devem concorrer em igualdade de condições.
- Portabilidade de dados e contas — o usuário leva histórico e perfil para onde quiser.
- Multas pesadas — até 10 % da receita global se a empresa descumprir a lei.
Alphabet (Google), Amazon, Apple, ByteDance, Meta e Microsoft já carregam o rótulo de gatekeeper em outros segmentos, mas as divisões de smart TV ainda não foram contempladas. Se o enquadramento avançar, o simples layout da sua TV poderá mudar, priorizando a neutralidade na exibição dos apps.
Assistentes virtuais entram na discussão
A ACT também pede que Alexa, Google Gemini e Siri sejam incluídos no pacote regulatório. O argumento: quem controla o comando de voz, controla a busca por conteúdo. Basta lembrar que, em dispositivos Fire TV, ao perguntar “mostrar filmes de ação”, a interface normalmente destaca produções do Prime Video antes das demais bibliotecas.
Por que isso importa para quem joga ou faz streaming?
• Menos “caça ao app”: obrigadas a tratar todos por igual, as plataformas teriam que exibir Disney+, Star+, HBO Max e rivais no mesmo destaque dado aos aplicativos nativos.
• Melhor performance de hardware: se a competição ficar mais apertada, fabricantes podem turbinar processadores gráficos, Wi-Fi 6E e frequências de 120 Hz para diferenciar seus modelos — um ponto vital para gamers que dependem de baixa latência nas partidas via GeForce NOW ou Xbox Cloud Gaming.
Imagem: Internet
• Atualizações mais longas: com a lupa da UE sobre frentes como segurança e interoperabilidade, Google e Amazon tendem a estender o suporte de software, algo que valoriza sua próxima compra de Chromecast 4K ou Fire TV Stick 4K Max.
Relembre o caso Disney x YouTube TV
O risco de concentração não é hipotético. Em outubro de 2025, um desentendimento contratual tirou ESPN, ABC e outros canais Disney de 9 milhões de assinantes do YouTube TV por 15 dias. Resultado: US$ 64,5 milhões em receita perdida para a Disney — e muita frustração para quem queria assistir aos playoffs da MLB naquele fim de semana. Situações assim servem de munição para o lobby pró-regulação.
Consumidor ganha ou perde?
Se por um lado a interferência da UE pode nivelar o campo de jogo, por outro há o temor de que as empresas repassem eventuais multas ou custos de compliance para o preço final de dispositivos como o recém-lançado Fire TV Stick 4K Max (2023), um dos dongles com melhor custo-benefício hoje na Amazon Brasil. Para quem está de olho em uma nova TV 4K QLED da Samsung ou em um media center Android TV da Xiaomi, vale ficar atento: mudanças de interface, políticas de atualização e até bundles promocionais podem ocorrer nos próximos meses.
Próximos passos
A Comissão Europeia analisa o pedido e deve soltar um parecer preliminar ainda em 2026. Caso aprove a designação, Google, Amazon e Samsung terão seis meses para adequar seus sistemas em toda a zona do euro. Especialistas acreditam que outros mercados — inclusive o Brasil — podem adotar regras semelhantes, seguindo o efeito dominó visto na Lei Geral de Proteção de Dados.
Enquanto isso, a dica é clara: compare sempre. Verifique quais apps vêm pré-instalados, o espaço de armazenamento interno para novos serviços e, sobretudo, qual ecossistema se encaixa melhor no seu perfil. Uma escolha informada hoje evita dores de cabeça (e de bolso) amanhã.
Com informações de Mundo Conectado