Aquilo que começou em 2019 como um plano de contingência para contornar o embargo dos Estados Unidos virou um ataque frontal ao império de software norte-americano. O HarmonyOS, sistema operacional proprietário da Huawei, já roda em mais de 900 milhões de dispositivos e deve cruzar a marca de 1 bilhão ainda em 2026. Agora, a empresa estende a ofensiva para o mercado de computadores pessoais, terreno historicamente dominado por Microsoft Windows e, em nichos educacionais, pelo Google ChromeOS.
De “plano B” a ecossistema bilionário
Nos últimos cinco anos, a Huawei refinou o HarmonyOS até transformá-lo em um ecossistema completo que conecta smartphones, tablets, wearables, dispositivos IoT e, cada vez mais, PCs. A estratégia deu frutos: em 2025 a gigante chinesa recuperou a liderança do mercado de celulares na China, despachando 46,8 milhões de unidades e abocanhando 17 % de share, à frente de Vivo (46 mi) e Apple (45,9 mi).
Por que isso importa para você que joga ou trabalha no PC?
Quando a licença de uso do Windows expirou, em março de 2025, a Huawei não podia simplesmente renovar – as sanções dos EUA bloquearam o processo. Resultado: todos os próximos notebooks da marca sairão de fábrica com o HarmonyOS Next, versão 100 % independente, sem qualquer linha de código herdada de Android ou Linux. Na prática, isso significa:
- Integração total com celulares e tablets da marca; copiar um texto no smartphone e colar no notebook, por exemplo, é instantâneo.
- Baixo consumo de recursos, algo relevante num cenário em que preços de RAM e SSD devem seguir altos em 2026.
- Ecossistema de IA integrado: a Huawei já destinou 1 bilhão de yuans para incentivar desenvolvedores a criar recursos baseados em inteligência artificial nativa.
Números que tiram o sono da Big Tech
A consultoria Omdia projeta que, enquanto o mercado global de PCs deve encolher 12 % em 2026, os notebooks com HarmonyOS saltarão de 141 mil unidades em 2025 para 1,4 milhão em 2026. No mesmo período, dispositivos de entrada com ChromeOS devem despencar 28 %. Mantido o ritmo, o sistema da Huawei ultrapassará o ChromeOS até o fim de 2027.
Comparativo rápido: HarmonyOS Next vs. Windows 11 vs. ChromeOS
Tempo de inicialização: a Huawei promete boot em menos de 10 segundos – similar ao ChromeOS, mas sensivelmente mais rápido que boa parte dos notebooks Windows.
Suporte a apps: mais de 4 mil aplicativos nativos já estão disponíveis na PC AppGallery. Para contexto, o ChromeOS depende amplamente de apps web e Android; o Windows, por sua vez, carrega décadas de legado Win32 – prós e contras incluídos.
Sinergia hardware–software: tal como Apple faz com macOS e chips M-series, a Huawei projeta notebooks com processadores Kirin próprios. Isso reduz consumo de energia e entrega ganhos de desempenho gráfico em jogos competitivos como League of Legends e Valorant, segundo demos internas.
E no Brasil, posso usar?
No varejo nacional, os celulares da Huawei ainda chegam com a interface EMUI baseada em Android. Para contornar a ausência dos serviços Google (GMS), basta instalar o GBox via AppGallery – solução que emula a Play Store e permite usar Instagram, WhatsApp, apps bancários e até jogos que exigem Play Services. Nos futuros notebooks HarmonyOS, a expectativa é de que processos semelhantes permitam instalar apps populares ocidentais, embora a Huawei ainda não confirme lançamento oficial por aqui.
Imagem: Internet
O que observar nos próximos meses
• Lançamentos de notebooks HarmonyOS Next fora da China: se chegarem à América Latina com preços agressivos, podem atrair consumidores que buscam máquinas leves para estudo, home office e streaming.
• Pacotes de produtividade e jogos nativos: a expansão da suíte Huawei Docs e a chegada de títulos da Tencent serão decisivos para convencer quem vive no ecossistema Windows/Steam.
• Compatibilidade com periféricos: se você já investiu em mouse gamer, teclado mecânico ou headset USB-C vendido na Amazon, vale acompanhar certificações oficiais de plug-and-play no HarmonyOS Next.
Ao combinar hardware próprio, aposta em IA local e uma loja de aplicativos em rápido crescimento, a Huawei se posiciona como a rival mais sólida ao duopólio de software mantido por Microsoft e Google. Se a marca conseguirá replicar na arena global o sucesso doméstico, ainda é cedo para cravar. Mas a corrida pelo “terceiro sistema operacional” finalmente ganhou um competidor de peso – e com números que começam a incomodar o Vale do Silício.
Com informações de Mundo Conectado