Em 1996, a Compaq prometia livrar as mesas da bagunça de cabos com o Presario 4402, um suposto computador “all-in-one” que custava US$ 1.999 — o equivalente a mais de US$ 4.100 hoje. Quase três décadas depois, uma desmontagem recente do canal Action Retro revelou o truque por trás da mágica: o bloco de 19,5 kg escondia um desktop convencional inteiramente separado de um monitor CRT de 15 polegadas, unidos apenas por… cabos internos comuns.
O charme do “PC sem fios” nos anos 90
Quem montava computador em meados dos anos 90 lidava com gabinete torre, CRT volumoso, caixas de som externas, modem discado e aquele emaranhado de conectores. A proposta da Compaq era simples: vender conveniência. O 4402 chegava como um bloco único de 16 × 14,1 × 15,2 pol. e prometia instalar-se como se fosse uma televisão.
Para estudantes em repúblicas ou famílias com pouco espaço, a ideia era irresistível. Não à toa, críticas da época apontavam o Presario como solução prática — mesmo custando praticamente o mesmo que PCs modulares de desempenho semelhante sem monitor.
Ficha técnica respeitável (para 1996)
Por dentro, o Presario 4402 trazia:
- Pentium 133 MHz (FSB de 66 MHz)
- 16 MB de RAM EDO 60 ns (expansível a 128 MB)
- HD Western Digital Caviar 1,6 GB
- Drive de CD-ROM 6× e disquete 1,44 MB
- Modem dial-up de 33,6 kbps
- Caixas acústicas estéreo embutidas e botões frontais para CD de áudio
- Windows 95 pré-instalado + CD de recuperação
O pacote de software incluía Microsoft Works, Netscape Navigator e a Enciclopédia Interativa Compton’s 1996. Para a Compaq, a palavra-chave era “pronto para uso”.
A desmontagem que expôs a gambiarra
Ao abrir a carcaça, o Action Retro encontrou um cenário pouco glamoroso: um cabo VGA convencional conectava o monitor ao backplate da placa-mãe, enquanto fios de áudio, microfone e energia seguiam o mesmo caminho. Não havia placa-mãe proprietária nem solução integrada — apenas um desktop low-profile preso por parafusos sob o CRT.
Na prática, se a tela queimasse, o usuário precisava trocar o conjunto inteiro de 20 kg. Por outro lado, bastava plugar um novo monitor na saída VGA para usar o computador de forma totalmente independente, desmontando o mito do “tudo-em-um”.
Expansão limitada, mas possível
Curiosamente, a Compaq manteve certa margem para upgrades: havia uma placa riser com dois slots ISA e um slot PCI. Isso permitia instalar uma placa de vídeo 3Dfx Voodoo (sonho gamer da época) ou uma placa de som mais robusta — algo impensável em muitos all-in-ones atuais, onde tudo é soldado na placa.
Imagem: William R
Marketing turbinado por Star Trek
Para coroar a experiência, o primeiro boot exibia um vídeo de boas-vindas estrelado por John de Lancie — o Q de “Star Trek: The Next Generation” — garantindo que você havia investido em confiabilidade e alta tecnologia. Em alguns países, o ator chegou a ser dublado para “guiar” os novos donos do Presario pelos recursos multímidia.
Comparando com all-in-ones modernos
Hoje, linhas como Apple iMac, MSI Modern AM ou HP Pavilion All-in-One oferecem telas IPS 4K, processadores Intel Core de 12ª geração e GPUs integradas bem mais potentes que o Pentium de 133 MHz. Diferente do 4402, esses modelos trazem placa-mãe projetada para o chassi, webcams embutidas e redundância mínima de cabos internos. Porém, a lição de 1996 continua válida: verifique a possibilidade de upgrade ou reparo do display antes de investir em um all-in-one, especialmente se usa o PC para jogos ou edição de vídeo, onde a GPU dedicada pode fazer falta.
Por que essa história ainda importa?
O Presario 4402 é um lembrete divertido de como o marketing pode “encaixotar” soluções convencionais em embalagens vistosas. Para o consumidor moderno, entender esse passado ajuda a avaliar:
- Se a conveniência de menos cabos vale o sacrifício de upgrade.
- Se o preço premium de um all-in-one compensa frente a um desktop mini-ITX + monitor separado — combinação que hoje pode ocupar espaço similar ao antigo Presario, mas com muito mais flexibilidade.
- Que especificações (CPU, RAM, GPU e portas) realmente farão diferença no seu dia a dia de trabalho, estudo ou jogo.
No fim das contas, o “segredo” da Compaq virou peça de museu e curiosidade de entusiastas. Mas também pavimentou caminho para a categoria de PCs compactos que vemos nas vitrines virtuais da Amazon em 2024 — agora mais leves, silenciosos e honestamente integrados.
Com informações de Hardware.com.br