A memória RAM — aquele componente que costuma ficar longe dos holofotes quando falamos de placas de vídeo ou processadores — acaba de se tornar a peça mais onerosa dentro de um computador pessoal. A HP revelou que memória e armazenamento já representam cerca de 35 % do custo total de materiais (BOM) de seus desktops e notebooks. Há três meses, esse peso variava entre 15 % e 18 %. Em outras palavras, o valor da RAM praticamente dobrou de um trimestre para o outro.
Por que a memória disparou de preço tão rápido?
O vilão atende pelo nome de data centers de inteligência artificial. Gigantes como Amazon AWS, Google Cloud e Microsoft Azure estão comprando montanhas de módulos HBM e DDR5 de servidor para alimentar GPUs NVIDIA H100, B200 e concorrentes. Os dois maiores fabricantes globais de DRAM, Samsung e Micron, passaram a dedicar linhas inteiras de wafer a esses chips premium, diminuindo a oferta para PCs convencionais.
Entenda o efeito dominó
A linha de produção que faz HBM é, na prática, a mesma que poderia estar fabricando DDR5 para o seu notebook gamer. Quando a balança pende para o lado corporativo, falta silício no varejo. Resultado: o preço de cada gigabyte de RAM salta, e o custo final bate em cheio no computador que chega às prateleiras — ou no carrinho de compras online.
Estratégia da HP: cortar, diversificar e repassar
Para não colocar toda a conta no bolso do consumidor, a HP vem adotando três frentes:
- Diversificação de fornecedores: acelerar a homologação de fábricas fora do eixo Samsung/SK Hynix/Micron.
- Configurações com menos RAM: modelos de entrada podem voltar aos 8 GB de DDR5, um retrocesso para quem se acostumou a ver 16 GB como “o mínimo” em 2024 e 2025.
- Reajuste de preço: parte do aumento, inevitavelmente, chegará ao consumidor ainda em 2026.
AI PCs ganham força — e camuflam o aumento
A boa notícia (ou não) é que os AI PCs — notebooks e desktops com NPU dedicada para rodar modelos de linguagem localmente — já respondem por 35 % das vendas da divisão Personal Systems da HP. São máquinas premium, com margens maiores, capazes de absorver parte do custo extra de memória. Só que esse oxigênio fica no topo da pirâmide. Quem busca um PC de entrada ou pensa em montar um setup gamer barato sentirá o baque com mais força.
O que isso significa para quem vai montar ou atualizar o PC em 2026?
- DDR5 mais salgado: kits de 32 GB que custavam algo próximo de R$ 700 em meados de 2025 já beiram ou superam os R$ 1.000 em várias lojas online.
- 16 GB pode voltar a ser “entusiasta”: sistemas prontos podem vir com 8 GB para segurar preço. Para jogos atuais, isso significa mais tempo de loading, gargalos em títulos como Starfield e perda de desempenho em multitarefa.
- DDR4 ainda é refúgio, mas pelo tempo curto: se você tem placa-mãe compatível, atualizar para 32 GB DDR4 pode ser o caminho mais em conta até o mercado equilibrar. Contudo, novas plataformas Intel e AMD já migraram totalmente para DDR5.
- Fique de olho em promoções pontuais: lotes excedentes ou quedas momentâneas de câmbio podem gerar janelas de oportunidade; usar sistemas de alerta de preço passa a ser quase obrigatório.
Efeito nos periféricos e demais componentes
Embora o aumento se concentre na memória, a tendência pressiona fabricantes a buscar margens em outros itens. Teclados, mouses gamers e SSDs podem manter preços estáveis para atrair o consumidor, enquanto o reajuste acontece “por baixo do capô” com menos RAM ou clock inferior. Avalie com cuidado as especificações antes de fechar a compra.
Imagem: William R
Projeção: quando — e se — o preço deve cair?
No curto prazo, a própria HP prevê novos picos ao longo do ano fiscal 2026. A virada pode vir somente quando:
- Novas fábricas de DRAM entrarem em operação (T2/2027, segundo a TrendForce).
- A demanda de data centers estabilizar após o ciclo inicial de IA generativa.
- As CPUs e NPUs de consumidor passarem a usar LPDDR5X soldada em placas-mãe, liberando módulo DIMM para quem realmente precisa.
Até lá, planeje upgrades com antecedência, aproveite cashback e considere que investir um pouco mais em kits de maior capacidade pode evitar um segundo upgrade ainda mais caro.
No fim das contas, a engenharia de IA que roda em nuvem está, literalmente, batendo à porta do seu desktop. Se a memória virou o item mais caro do PC, comparar especificações, estoques e preços nunca foi tão importante para fechar a melhor compra.
Com informações de Hardware.com.br