Um novo relatório do Tech Transparency Project (TTP), obtido com exclusividade pela WIRED, coloca a rede social X (antigo Twitter) no centro de uma polêmica internacional: a plataforma teria vendido assinaturas X Premium — e, por consequência, os cobiçados selos azuis de verificação — a mais de 20 contas ligadas ao alto escalão do governo do Irã. Segundo especialistas ouvidos pela revista, a prática pode configurar violação direta às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos ao regime iraniano.
Entenda o caso em 1 minuto
• Quem acusa? O TTP, organização sem fins lucrativos que monitora Big Techs.
• O que foi descoberto? Autoridades iranianas, já sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA, mantinham contas pagas no X, com recurso para impulsionar posts e exibir anúncios governamentais.
• Por que isso importa? As sanções permitem apenas serviços gratuitos e de acesso público; qualquer serviço pago (como o selo azul) pode ser enquadrado como “exportação proibida de serviços”.
De apoio aos manifestantes a negócios com o regime
Elon Musk foi rápido em declarar publicamente apoio a manifestantes iranianos que protestam contra a crise econômica e o líder supremo Aiatolá Ali Khamenei. Entretanto, o relatório indica que, nos bastidores, o X lucrava com assinaturas premium vendidas a funcionários, agências estatais e perfis oficiais do governo iraniano. Até anúncios patrocinados teriam sido veiculados enquanto o país mantinha um bloqueio quase total de internet convencional — cenário em que a constelação de satélites Starlink, também de Musk, virou praticamente a única rota de conexão externa.
Por dentro da violação das sanções
Desde 2022, as regras dos EUA preveem exceções para que empresas de tecnologia mantenham seus serviços gratuitos ativos no Irã, permitindo a circulação de informação entre civis. O problema surge quando há qualquer pagamento envolvido. “Se o X recebeu dinheiro ou ofereceu recursos extras não disponíveis gratuitamente, o ato escapa da autorização e pode ser interpretado como exportação de serviços ao governo do Irã”, explica o advogado Oliver Krischik, especialista em sanções do OFAC.
Quem são os perfis com selo azul
Entre os nomes citados pelo TTP estão:
- Ali Larijani – ex-presidente do Parlamento e assessor sênior de Khamenei, considerado pelo Tesouro um dos arquitetos da repressão aos protestos.
- Ali Akbar Velayati – ex-chanceler, sancionado em 2019 por apoiar o regime sírio de Bashar al-Assad.
- Ali Ahmadnia – chefe de comunicações do presidente iraniano, cuja bio no X chegou a exibir um link para doações em Bitcoin.
Horas após a publicação da WIRED, os selos azuis de alguns desses perfis desapareceram, mas outras contas continuam ativas e verificadas.
Da verificação “mérito” ao modelo pago
Antes da compra do Twitter por Musk, o selo azul era gratuito e concedido a figuras de relevância pública que comprovassem identidade. Em 2023, o empresário transformou o ícone em um recurso de assinatura: paga-se US$ 8 mensais para obter o distintivo, direito a posts mais longos, menor volume de anúncios e maior alcance algorítmico. Críticos afirmam que a mudança dificultou a diferenciação entre perfis legítimos e propagandistas.
Imagem: Agency
Demissões, compliance e risco jurídico
Desde a aquisição do antigo Twitter, o X reduziu drasticamente equipes de compliance e moderação. Para Katie Paul, diretora do TTP, isso contribuiu para o cenário atual: “Eles não apenas relaxaram as políticas de segurança, mas passaram a lucrar diretamente com indivíduos e entidades sancionadas”. A senadora norte-americana Elizabeth Warren reforçou a pressão e pediu investigação formal do Tesouro.
O que acontece agora?
• O Departamento do Tesouro dos EUA não comenta casos específicos, mas afirmou que “leva alegações de violação de sanções extremamente a sério”.
• Caso seja comprovado que houve pagamentos, o X pode sofrer multas milionárias e até restrições de operação em território americano.
• Especialistas também veem risco de perda de confiança junto a anunciantes — problema sensível para a rede social, que já enfrenta queda de faturamento desde 2023.
Para usuários comuns, o episódio serve de alerta sobre quem ganha alcance privilegiado nas redes. Selos azuis podem sugerir legitimidade, mas a realidade dos bastidores — tanto política quanto financeira — nem sempre é tão clara.
Com informações de Olhar Digital