Imagine ligar The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom em uma tela curva, com linhas de varredura visíveis e aquele brilho quente de fósforo que marcou a infância de muita gente nos anos 90. Foi justamente esse choque de épocas que motivou o youtuber e engenheiro de bancada Joel Creates a fundir o futuro (o ainda inédito Nintendo Switch 2) com o passado glorioso das televisões de tubo. O resultado é um “portátil” de quase 5 kg, autonomia de apenas uma hora, mas capaz de entregar uma imagem que — nas palavras do criador — “nem o melhor OLED moderno consegue igualar”.
Por que insistir em CRT em 2025?
Enquanto a indústria corre atrás de painéis OLED de 144 Hz e mini-LEDs ultrabrilhantes, os entusiastas de retro gaming defendem que a tecnologia CRT ainda oferece vantagens únicas: tempo de resposta praticamente nulo, ausência de motion blur e um contraste natural difícil de reproduzir por emulação. Para títulos com arte em pixel ou shaders estilizados — comuns na biblioteca Nintendo — o resultado pode ser mais fiel (e também mais nostálgico) do que em telas planas convencionais.
Da Sony Watchman à Memorex: a caçada pelo tubo perfeito
Joel começou o projeto utilizando uma Sony Watchman, TV portátil cultuada entre colecionadores. Após repetidas extensões de cabos, o aparelho “fritou” com um cheiro de plástico queimado. A segunda tentativa, uma GE Space Maker, até funcionou, mas apresentou cores lavadas. A solução final foi uma Memorex CRT, maior, com fósforo mais denso e melhor convergência de cores — ainda que exigisse redesenhar todo o chassi em impressão 3D.
HDMI digital vs. vídeo composto analógico: a engenharia por trás do Frankenstein
O Switch 2 envia sinal digital via HDMI. Já a Memorex aceita apenas composto. Para unir esses mundos, Joel implementou uma cadeia tripla de conversão: HDMI → VGA → Composto. A etapa intermediária em VGA evitou upscale e latência. Ainda assim, o primeiro adaptador apresentou glitches de áudio solucionados com blindagem em fita de alumínio no conector.
GameCube Joy-Cons: ergonomia old-school
Controles N64 estavam no plano original, mas oferecer apenas um analógico inviabilizou a ideia. A saída foi dissecar dois Joy-Cons em estilo GameCube, recabeá-los e montar em empunhaduras laterais inspiradas nos grips originais do console de 2001. O resultado é 100 % compatível com o Switch, mantendo a vibração HD Rumble e o giroscópio.
Som premium (quase) vintage
Para o áudio, Joel sonhava com alto-falantes de iMac G3, famosos pelo timbre encorpado nos anos 90. Como todos os exemplares garimpados estavam queimados, ele recorreu a substitutos recomendados em fóruns de restauração e instalou o par em pequenos gabinetes selados dentro do chassi.
Alimentação e refrigeração
Toda a parafernália é sustentada por um power bank de 100 W, regulado a 5 V para conversores, ventiladores e controladores. A carga aguenta cerca de 60 min de gameplay — limite imposto mais pelo tubo que pelo próprio console. Dois fans de 40 mm posicionados ao lado do dock modificado dissipam o calor do conjunto.
Design 3D em 45°: truque visual e conforto inesperado
Querendo esconder o comprimento do tubo sem sacrificar a pegada, Joel encontrou em imagens geradas por IA a inspiração para posicionar o CRT num ângulo de 45 graus. A tela fica voltada para cima, enquanto o canhão se alonga para trás, liberando espaço para os controles. Surpreendentemente, o formato lembra um aparelho VHS apoiado no colo — exatamente o efeito social que o criador buscava.
Imagem: William R
Nostalgia social: jogar como na “fogueira” dos anos 90
Segundo Joel, o objetivo é encorajar o jogo em grupo. Diferente do Switch convencional, que cada um segura sozinho, o “monstro CRT” precisa de colo e espaço, permitindo que amigos vejam a mesma tela — uma reminiscência das sessões de sofá dos consoles de antigamente.
Quanto custou e vale a pena tentar em casa?
O projeto levou 10 meses (janeiro–outubro de 2025) e consumiu cerca de US$ 500 apenas no Switch 2, sem contar TVs sacrificadas, impressões 3D e componentes queimados — despesa que facilmente dobra se você repetir os erros de voltagem que Joel cometeu nas fases finais.
O que esse experimento ensina para o seu setup?
Se você busca latência zero e cores vivas para jogos pixel-art, uma TV de tubo restaurada pode ser o upgrade mais barato (e inusitado) do seu cantinho gamer. Já para quem prefere a conveniência de um OLED leve, o Switch 2 padrão continua imbatível. De qualquer forma, a invenção de Joel reforça que há espaço para inovação — mesmo quando ela passa por ressuscitar tecnologias esquecidas em brechós.
No fim das contas, o “Switch 2 CRT” não é um produto pronto para vender, mas sim uma declaração de amor ao DIY e à história dos videogames. E, cá entre nós, pode também inspirar você a garimpar aquele velho monitor de tubo e dar uma segunda vida aos seus jogos favoritos.
Com informações de Hardware.com.br