Se você vem juntando moedas para turbinar o PC gamer ou trocar de smartphone nos próximos dois anos, é melhor rever o orçamento. Analistas preveem um salto de até 50 % no preço dos módulos de memória RAM já em 2026, consequência direta da corrida pelos chips de Inteligência Artificial (IA). No centro desse furacão está a Samsung, que transforma a crise de oferta em recordes históricos de lucro e valor de mercado.
Como a RAM virou o novo “ouro” da tecnologia
Depois de passar 2024 em baixa, o mercado de memória entrou em superciclo em 2025. A demanda exponencial por IA — de chatbots generativos a data centers inteiros — fez com que os preços de DRAM para servidores saltassem até 40 % em poucos trimestres. Para 2026, firmas de pesquisa como TrendForce e Omdia projetam outro avanço de dois dígitos, empurrando para cima os preços da memória destinada a produtos de consumo.
Enquanto você lê estas linhas, módulos DDR5 de 32 GB, que em 2023 eram encontrados no Brasil por menos de R$ 900, já beiram R$ 1.400 nos grandes varejistas. A perspectiva é que ultrapassem a barreira de R$ 2.000 se o desequilíbrio entre oferta e procura persistir.
HBM é o nome do jogo (e a Samsung tem as cartas)
O protagonista por trás da inflação dos chips é um formato que quase ninguém tem em casa: a HBM (High Bandwidth Memory). Esse padrão, usado em GPUs de IA como as NVIDIA Hopper e na futura linha Rubin, oferece velocidades acima de 1 TB/s e exige empilhamento vertical de silício – um processo complexo e caro.
A Samsung acabou de certificar as gerações HBM3e e HBM4 e, com isso, encurta a distância que a separava da SK Hynix, atual líder do segmento. Para dar conta dos volumes astronômicos exigidos por NVIDIA, AMD e, em breve, Intel, a empresa investiu US$ 47 bilhões em fabs nos EUA, incluindo a nova planta de Taylor (Texas), já preparada para litografias de 2 nm e 4 nm.
É simples: quanto mais wafers ocupados com HBM de altíssima margem, menos espaço sobra na linha para produzir DDR, LPDDR ou GDDR. O resultado chega direto ao seu bolso.
“Uma só Samsung” — mas cada divisão por si
Internamente, a gigante sul-coreana vive uma espécie de guerra civil. Documentos vazados à imprensa local indicam que a Samsung Semiconductor recusou contratos de longo prazo com a Samsung Mobile para fornecer RAM ao próximo Galaxy S26. O motivo? Os data centers pagam mais — e à vista.
Não se trata de novidade. A mesma cena ocorreu em 2021, quando a Samsung Display abandonou painéis LCD em prol dos QD-OLED, forçando a divisão de TVs a buscar fornecedores externos. Agora, o roteiro se repete com a memória.
Impacto direto nos smartphones de 2026
Especialistas estimam que o custo de produção de um smartphone pode subir entre US$ 30 e US$ 50 apenas por causa da RAM. Para a Samsung, isso cria um dilema: repassar 100 % da diferença, cortar margens ou reduzir especificações.
- Promoções de “dobro de memória” em pré-venda (ex.: 8 GB ► 12 GB) podem desaparecer.
- Modelos intermediários podem estagnar em 8 GB, algo impensável há dois anos.
- Marcas como Xiaomi, Oppo e Motorola já sinalizam versões com menos RAM para equilibrar tabela.
A Apple, com fluxo de caixa robusto e contratos especiais com a Micron, deve segurar os preços do iPhone 17, pressionando a Samsung a buscar eficiência ou assumir o aumento.
Imagem: Internet
Efeito cascata nas GPUs e nos PCs gamers
“Mas minha placa de vídeo usa GDDR6X, não HBM.” Verdade, porém o gargalo é compartilhado: Samsung, SK Hynix e Micron competem por maquinário idêntico para empacotar todos esses chips. Quando o parque fabril estrangula, tudo encarece.
As primeiras placas NVIDIA RTX 50 e AMD Radeon RX 8000 chegarão ao varejo em ciclo de oferta apertado, o que pode somar de 10 % a 20 % ao MSRP previsto. Módulos DDR para desktop e notebook seguem o mesmo caminho.
Vale a pena atualizar agora ou esperar?
Para quem mira um upgrade em 2026, a estratégia clássica “segurar mais um ciclo” pode não surtir efeito se o custo da RAM continuar escalando. Dois cenários possíveis:
- Comprar já em 2024/25 — enquanto o estoque de DDR5 e LPDDR5 ainda chega a preço razoável.
- Aguardar novos padrões (DDR6, LPDDR6) em 2027, torcendo pela normalização da oferta de HBM e pela expansão de fábricas na Arizona, Japão e Europa.
Independentemente da escolha, o fator RAM voltou a ser decisivo no planejamento de PCs e celulares, algo que não víamos desde a transição do DDR3 para o DDR4 em 2014.
O que observar nos próximos trimestres
• Contratos longos de HBM: se NVIDIA fechar volumes ainda maiores, a pressão sobre DDR aumenta.
• Desistência do varejo: a Micron já abandonou a linha Crucial para consumidor final; outras podem seguir.
• Inventário da China: fabricantes como ChangXin (CXMT) tentam ampliar DRAM doméstica; se conseguirem, o Ocidente pode respirar.
No fim das contas, a Samsung percebeu que o futuro da computação está menos em quem vende o dispositivo final e mais em quem fornece a “gasolina premium” que faz a IA rodar. E quem depende dessa gasolina — você, gamer ou entusiasta mobile — precisa ajustar as velas antes que a tempestade de chips alcance todo o mercado.
Com informações de Mundo Conectado