Um pedaço de papel de 19 × 7,6 cm, datado de 16 de março de 1976, está provocando uma corrida entre colecionadores de tecnologia vintage. Trata-se do primeiro cheque emitido da conta bancária da Apple Computer Company, assinado por Steve Jobs e Steve Wozniak 16 dias antes da fundação oficial da empresa. No leilão “The Apple 50th Anniversary Auction”, da RR Auctions, os lances ultrapassaram US$ 161 mil na primeira semana e especialistas apostam que a relíquia pode chegar ou superar a marca de meio milhão de dólares.
Mais que papel: a certidão de nascimento da Apple
O cheque de US$ 500 foi destinado a Howard Cantin, engenheiro de layout de PCB da Atari que transformou os esquemas do Apple-1 em uma placa de circuito impresso pronta para produção. Sem esse trabalho, Jobs e Wozniak teriam apenas desenhos no papel — e possivelmente a revolução do computador pessoal teria sido adiada.
A data de 16 de março de 1976 é crucial. O documento antecede em exatos 16 dias a assinatura do contrato social que instituiria a Apple Computer Company em 1.º de abril, com divisão de ações 45 % (Jobs), 45 % (Wozniak) e 10 % (Ronald Wayne). Na época, qualquer despesa acima de US$ 100 exigia aprovação de ambos os cofundadores. Ou seja: esse cheque de US$ 500 foi literalmente um “all-in” de duas mentes que vendiam bens pessoais — Jobs se desfez de sua Kombi VW, Woz de sua calculadora HP-65 — para financiar o futuro Mac.
Estado de conservação e autenticidade
Certificado pela PSA/DNA com nota Mint 9, o cheque exibe:
- Assinatura de “steven jobs” em letras minúsculas;
- Assinatura de “Steve Wozniak” completa;
- Endosso de Howard V. Cantin no verso, acompanhado do carimbo bancário.
Em documentos históricos, a combinação de autenticidade dupla (frente e verso) e conservação quase perfeita multiplica o valor. Para efeito de comparação, o cheque número 2 da mesma conta foi arrematado em 2023 por US$ 135 mil, já com desgaste visível.
O que esse cheque financiou?
O Apple-1 estreou em julho de 1976 por US$ 666,66, aproximadamente US$ 3,5 mil em valores de hoje. Pouco mais de 200 unidades foram vendidas, muitas delas ainda sobrevivem e já atingiram valores milionários em leilões recentes. O kit incluía apenas a placa lógica; teclado, fonte e monitor eram responsabilidade do usuário — um contraste gritante com os iMacs “tudo em um” ou mesmo os MacBooks ultracompactos que dominam o mercado atual.
Em termos de especificações, o Apple-1 rodava um MOS 6502 a 1 MHz com 4 KB a 8 KB de RAM. Compare isso com um Apple M3 Pro moderno: CPU de 12 cores, GPU de 18 cores e largura de banda de memória que ultrapassa 150 GB/s. A distância tecnológica ajuda a explicar por que artefatos do início da Apple viraram objeto de desejo para colecionadores — eles simbolizam o ponto zero de uma das curvas de evolução mais agressivas da indústria de hardware.
Imagem: William R
Por que o mercado de memorabilia tech disparou?
Dois fatores puxam a valorização: a escassez absoluta — documento único e com assinatura dupla — e a carga emocional associada ao aniversário de 50 anos da Apple, comemorado em 2026. Além de colecionadores individuais, venture funds especializados em ativos alternativos e museus corporativos disputam itens que contam a narrativa da era digital.
Diferentemente de consoles retrô ou computadores clássicos que ainda podem ser usados como peça funcional, documentos como este cheque são imunes a obsolescência tecnológica. Eles se comportam mais como arte: quanto mais o tempo passa, mais raro é encontrar exemplares em bom estado.
Efeito vitrine: do Apple-1 aos gadgets de hoje
Embora a notícia gire em torno de uma peça histórica, ela reforça um padrão curioso: o hardware da Apple, mesmo de produção recente, tende a manter valor de revenda acima da média. O fenômeno ajuda a explicar por que acessórios e componentes compatíveis — de teclados mecânicos a hubs USB-C — ganham tanta atenção de compradores exigentes. Se você investe em periféricos para jogos ou produtividade, a cultura de design e longevidade inaugurada por Jobs e Wozniak há quase cinco décadas ainda é um argumento de peso na decisão de compra.
O leilão permanece aberto até 29 de janeiro de 2026. Caso o cheque ultrapasse a marca de US$ 500 mil, estabelecerá um novo recorde para documentos ligados à Apple e consolidará a memorabilia de hardware como categoria de colecionável “blue chip”.
Com informações de Hardware.com.br