Em pleno ano 2000, antes mesmo de o PlayStation 2 chegar às lojas brasileiras, a Sony lançou um comercial que saltava quase oito décadas no tempo e apresentava o lendário — e hipotético — PlayStation 9, com previsão de chegada em 2078. A peça publicitária, exibida na TV norte-americana e europeia, prometia realidade virtual total, interface neural direta e uma experiência de “controle mental” que parecia ficção científica. O vídeo virou objeto de culto entre fãs, marcou época na publicidade de games e, curiosamente, ainda dialoga com tecnologias que a marca começa a explorar hoje, como o PS VR2.
O console-esfera que respirava pelo nariz
No comercial, o PS9 não tem cantos nem portas USB. Ele surge como uma esfera transparente que abriga “esporos eletrônicos”. Ao ser girada, a bola libera essas partículas — mostradas em efeitos CGI de última geração para a época — que entram pelas narinas do protagonista e viajam até o cérebro. A narração descreve recursos futuristas como “ligação direta à glândula adrenal” e “escaneamento de retina aprimorado”, culminando em um letreiro com as palavras Mind Control. Era o auge da ousadia criativa: um console pensado para fundir hardware e sistema nervoso.
Produção digna de blockbuster e bastidores conturbados
Transformar essa visão em 60 segundos de TV não foi simples. Segundo o diretor criativo Chuck McBride, vários cineastas recusaram o briefing por acharem impossível “criar o futuro” de forma convincente. A missão ficou nas mãos do francês Erick Ifergan, da Serial Dreamer, com produção da Believe Media. As filmagens aconteceram em Hong Kong ao longo de cinco dias.
O ator principal — um jovem australiano sem experiência prévia — deu de cara com um set caótico: lutas de kung-fu no topo de prédios, monstros subaquáticos e uma equipe de Los Angeles aparentemente sem limites. Para integrar as cenas, o estúdio de efeitos visuais Method escaneou em 3D todo o crânio do ator no Maya e criou uma transição digital que ligava cada sequência de ação.
Apesar da parafernália digital, grande parte do que se vê aconteceu de fato diante das câmeras: cabos, explosões práticas e muita composição em múltiplas camadas. O clímax — quando a tela apaga e surge o logo do PS2 junto da frase “The Beginning” — foi apontado por McBride como o trecho mais difícil de acertar.
Uma campanha que abraçou o estranho
O comercial do PS9 fazia parte de uma estratégia maior da agência TBWA/Chiat/Day chamada Different Place. Different Rules. Em vez de exibir polígonos ou benchmarks, a Sony apostou na ideia de que jogar PlayStation era escapar de qualquer lógica convencional. Cartazes de cabeças partidas ao meio revelando fábricas mentais, rostos deformados em cubo mágico humano e bonecas andróginas segurando DualShocks reforçavam a estética inquietante.
Por que falar de PS9 em 2024?
Faltam mais de 50 anos para 2078, mas o vídeo de 2000 continua relevante por dois motivos. Primeiro, ele mostra como a Sony costuma antecipar tendências. A empresa não só lançou a realidade virtual consumidor com o PS VR original, como já oferece no PS VR2 rastreamento ocular, feedback háptico e comandos de movimento que ecoam a fantasia dos “esporos eletrônicos”.
Imagem: William R
Segundo, o comercial evidencia uma lição de marketing ainda válida: vender visão em vez de apenas especificações. Hoje, quando você pesquisa por um PlayStation 5 ou por acessórios como headset 3D Pulse ou controles DualSense Edge, boa parte do apelo vem dessa narrativa de imersão total — uma semente plantada lá atrás, quando o PS2 ainda engatinhava.
De PS2 a PS5: o caminho para 2078 já começou
Se o PS9 vai realmente chegar como uma bolinha neural, só saberemos em 2078. Mas o roadmap de tecnologias — gráficos em 8K, realidade mista, Wi-Fi de altíssima velocidade, armazenamento em estado sólido cada vez mais rápido — indica uma curva de inovação em linha com a promessa feita há 24 anos no comercial.
No presente, o PS5 já traz áudio 3D, SSD NVMe customizado de 5,5 GB/s (bruto) e suporte a até 120 fps, recursos que pareciam tão distantes quanto os esporos neurais no início dos anos 2000. Olhando por esse prisma, talvez a esfera translúcida não seja tão absurda assim — apenas a próxima etapa natural na busca pela imersão máxima.
No fim das contas, o antigo spot publicitário serve como lembrete de que, para a Sony, hardware é apenas metade da história. A outra metade é imaginar — e vender — futuros que deixem qualquer gamer contando os anos para o próximo salto geracional.
Com informações de Hardware.com.br