Você já imaginou ver a Apple sem iPhone, AirPods ou Macs com chip M-series? Esse cenário quase aconteceu. Em maio de 1997, durante a WWDC, Steve Jobs foi publicamente desafiado por um desenvolvedor inconformado com o cancelamento do projeto OpenDoc. O embate, que poderia ter afundado a moral da companhia, tornou-se o ponto de virada que alavancou a estratégia de produtos da empresa e, indiretamente, inspirou a forma como avaliamos hardware até hoje.
Apple às portas da falência
No fim dos anos 90, a gigante de Cupertino queimava caixa em produtos pouco rentáveis – Newton, Pippin, licenças de Mac OS para terceiros. O retorno de Jobs, em 1996, começou como consultoria, mas rapidamente se transformou em uma reengenharia total da linha de produtos. Para evitar o colapso, a Apple aceitou até um investimento de US$ 150 milhões da Microsoft, algo impensável para fãs das duas marcas.
OpenDoc: a tecnologia que ficou pelo caminho
Criado como um framework modular para documentos dinâmicos – algo que hoje lembraríamos de extensões e widgets –, o OpenDoc exigiu anos de trabalho da comunidade de desenvolvedores. Quando Jobs “puxou o plugue” dois meses antes da WWDC 1997, a frustração foi geral. Cancelar o projeto era cortar perdas, limpar o roadmap e focar em menos produtos, conceito que mais tarde daria vida ao lendário quadrante de quatro (desktop e portátil, profissional e doméstico).
O confronto em pleno palco
Robert “Bob” Hamisch, consultor de segurança à época, pegou o microfone e disparou:
“É triste perceber que, em vários aspectos, você não sabe do que está falando. Explique como o Java substitui as ideias do OpenDoc – e, já que estamos nisso, o que você fez de relevante nos últimos sete anos?”
Jobs cruzou os braços, sorriu ironicamente e tomou água. Nos segundos seguintes, nenhuma linha de código importou. Importava a visão de negócio.
“Comece pela experiência do usuário” – a resposta que vale trilhões
Jobs reconheceu que não dominava cada detalhe técnico do OpenDoc, mas direcionou o debate para o que realmente pagaria as contas:
“Você precisa começar pela experiência do usuário e trabalhar de trás para frente, não o contrário.”
E completou: se uma tecnologia não sustenta um produto capaz de faturar oito ou dez bilhões de dólares por ano, ela não entra no portfólio. Foi o prenúncio de uma nova Apple: menos linhas de produtos, mais foco em usabilidade e marketing – base que pavimentou o caminho para iMac G3, iPod, iPhone e, recentemente, os Macs com Apple Silicon.
Imagem: William R
O que essa lição ensina a quem escolhe hardware hoje?
• Especificação não é tudo: assim como OpenDoc parecia revolucionário no papel, um mouse de 26.000 DPI ou um teclado com 8.000 Hz de polling rate pode ser excesso se não melhorar sua experiência de jogo ou trabalho.
• Ecossistema importa: Jobs firmou parceria até com a rival Microsoft para manter a Apple viva. Hoje, antes de investir em componentes, pergunte se eles conversam bem com o resto do setup – seja via Bluetooth Low Energy, USB-C ou software de sincronização.
• Roadmap vale dinheiro: a Apple matou projetos inteiros para focar em poucos vencedores. Ao montar um PC ou escolher periféricos, priorize marcas com atualização constante de firmware, garantia sólida e uma linha clara de sucessores (Ex: placas de vídeo Nvidia RTX 40 Series já vinham com DLSS 3 no radar).
Por que este episódio continua atual?
O dilema entre insistir na tecnologia “queridinha” e apostar naquilo que realmente resolve a dor do usuário ainda vive em cada lançamento de hardware. Quando vemos a Apple transicionar para chips M3 e prometer 18 horas de bateria em laptops ultrafinos, ou quando a AMD simplifica a linha Ryzen 7000 focando em performance per watt, estamos testemunhando variações do mesmo princípio que Jobs vocalizou em 1997.
No fim, a melhor especificação é aquela que some ao produto sem que você perceba. A lição de Steve Jobs ultrapassa décadas e serve de bússola tanto para gigantes da tecnologia quanto para nós, consumidores, na hora de decidir entre um teclado mecânico hot-swap, uma placa de vídeo ray-tracing ou o próximo upgrade do PC.
Com informações de Hardware.com.br