A Amazon anunciou o desligamento de aproximadamente 14 mil colaboradores em 2024. O corte, defendido pelo CEO Andy Jassy, não teria relação direta com problemas de caixa nem com a ascensão da inteligência artificial (IA), mas com uma “mudança cultural” para devolver agilidade à companhia. Com vendas trimestrais de US$ 180 bilhões – alta de 13% ano a ano –, a gigante quer operar “como a maior startup do mundo”, reduzindo camadas gerenciais e liberando engenheiros para inovar mais rápido em Alexa, Fire TV, Amazon Basics e, principalmente, nos futuros serviços baseados em IA generativa.
Por que a Amazon está “achatando” sua estrutura?
Nos últimos dez anos, a empresa triplicou o número de divisões, desde AWS até a recém-criada unidade de dispositivos de IA doméstica. Esse crescimento adicionou níveis hierárquicos que, segundo Jassy, teriam enfraquecido o senso de responsabilidade de quem, de fato, escreve código, projeta hardware e atende clientes. O movimento de enxugamento – apelidado no mercado de Big Flattening (grande achatamento) – mira justamente a agilidade de startups, onde decisões são tomadas em dias, não em trimestres.
IA segue no radar, mas não foi o “culpado”
A Amazon investe pesado em IA: comprou participações na Anthropic, apresentou os próprios chips Trainium2 e Inferentia3 para data centers e já testa a assistente Alexa com geração de voz contextual. No entanto, Jassy frisa que a demissão não serve para “financiar” essas iniciativas. A leitura interna é que, com menos camadas, a companhia pode lançar produtos baseados em IA mais rapidamente e, no médio prazo, ampliar margens – algo que Wall Street aplaude.
Impacto prático: o que muda para quem compra tecnologia?
- Lançamentos mais frequentes: equipes menores e autônomas tendem a encurtar ciclos de desenvolvimento. Isso pode significar novas versões de Fire TV Stick, e-readers Kindle e até placas-mãe para servidores AWS chegando ao mercado antes do previsto.
- Preços potencialmente mais competitivos: menos camadas gerenciais reduzem custos indiretos. Parte dessa economia pode ser repassada ao consumidor, especialmente em linhas de alto volume, como Echo Dot e periféricos Amazon Basics.
- Integração de IA em todo o ecossistema: de sugestões de compra personalizadas até comandos de voz mais naturais nos dispositivos Echo, a promessa é que a experiência de uso fique cada vez mais “inteligente” sem exigir upgrades caros de hardware.
Como outras Big Techs estão se reestruturando
Google, Microsoft e Meta também adotaram cortes expressivos entre 2023 e 2024, seguindo a mesma lógica de eficiência. A Microsoft, por exemplo, demitiu cerca de 10 mil pessoas enquanto investia US$ 10 bilhões na OpenAI. Já a Alphabet eliminou 12 mil postos para acelerar a oferta de IA generativa no Google Cloud. O padrão indica que a “corrida da IA” exige tanto cash quanto agilidade interna – e a Amazon não quer ficar para trás.
Próximos passos: de startup “gigante” a líder em IA de varejo
Com aproximadamente 1,5 milhão de funcionários após os cortes (ainda acima do headcount de qualquer concorrente), a Amazon planeja simplificar fluxos de aprovação e dar mais autonomia às chamadas “equipes pizza” – grupos pequenos que cabem numa única pizza familiar, conceito criado por Jeff Bezos. A expectativa é que a reestruturação se traduza em lançamentos de hardware e serviços ainda em 2025, aproveitando a Black Friday e o Prime Day para testar novidades.
Imagem: DFree
Para o consumidor final, o recado é claro: prepare-se para ver Alexa mais inteligente, soluções de nuvem com custos menores para desenvolvedores de jogos e, quem sabe, periféricos gamer da marca Amazon Basics com especificações competitivas. Tudo isso sustentado por uma cultura interna que tenta equilibrar velocidade de startup com o poder financeiro de uma Big Tech.
No curto prazo, o “preço humano” das demissões segue em debate. Mas, para a Amazon, o caminho ideal para entregar a próxima geração de produtos – e manter sua relevância no dia a dia de quem compra teclados, mouses ou GPUs – passa por menos hierarquia e mais foco em inovação.
Com informações de Olhar Digital