No auge de 2021, obras digitais de “macacos entediados” eram vendidas por milhões de dólares, enquanto celebridades exibiam suas novas aquisições em redes sociais. A festa acabou, as cotações despencaram e muita gente decretou o fim dos NFTs. Mas a tecnologia por trás deles — a tokenização de ativos — acaba de ganhar novo fôlego, mirando agora bens tangíveis como imóveis, carros e até frações de salas comerciais. A promessa? **Liquidez instantânea, transações sem intermediários e segurança quase à prova de fraude**.
Do JPEG ao tijolo: o que mudou?
Os NFTs de 2021 eram majoritariamente imagens colecionáveis ancoradas no padrão ERC-721 do Ethereum, que oferecia um identificador único para cada token. Isso resolvia a “escassez digital”, mas não impedia que o JPG fosse copiado infinitamente — problema que minou a percepção de valor.
Com o surgimento do ERC-1155, desenvolvedores passaram a agrupar ativos fungíveis e não-fungíveis em um mesmo contrato inteligente. Essa “evolução genética” da blockchain habilitou a amarração de um token a algo que existe no mundo físico, abrindo caminho para escrituras de imóveis, cotas de multipropriedade e direitos autorais de músicas migrarem para o universo on-chain.
Por que isso é importante para você?
Imagine vender um apartamento sem cartório, sem reconhecimento de firma e sem esperar dias para a compensação bancária. No modelo de tokenização, o comprador envia as stablecoins ou o Real Digital (quando o Drex finalmente engrenar), o contrato inteligente libera automaticamente a propriedade registrada na blockchain e, em segundos, ambos recebem comprovantes imutáveis da operação. **Menos taxa, menos papelada, zero calote**.
Além da rapidez, a tokenização possibilita a fatiamento de ativos. Aquele flat em Balneário Camboriú que custa R$ 1 milhão pode ser dividido em 1 000 tokens de R$ 1 000. Pequenos investidores passam a acessar um mercado até então restrito a quem tinha muito capital ou relacionamento bancário — um cenário semelhante ao que os fundos imobiliários (FIIs) fizeram na B3, mas com liquidez 24/7 e sem corretoras.
Concorrentes e benchmark internacional
Empresas como a espanhola Brickken, a americana Propy e a brasileira Blocksquare já vêm testando modelos de venda de propriedades tokenizadas. No comparativo com o sistema tradicional:
- Tempo médio de liquidação: de 30 dias (escritura + cartório) para menos de 10 min.
- Custos indiretos: cartório (2% em média) e ITBI (3%) continuam existindo, mas as taxas de corretagem e assessoria jurídica despencam.
- Transparência: histórico de propriedade visível publicamente, diminuindo a possibilidade de dupla venda ou falsificação de matrícula.
E o Drex nessa história?
O projeto piloto do Drex — a versão tokenizada do Real sob guarda do Banco Central — inclui justamente a transferência de ativos físicos dentro da própria rede. A iniciativa está parada em 2024 após cortes de orçamento e mudança de gestão, mas deve voltar ao radar em 2025, segundo fontes do mercado. Quando isso acontecer, será possível trocar reais tokenizados por frações de carro, terreno ou até participação em usinas solares de forma nativa, com garantia estatal.
Imagem: Internet
Riscos ainda existem
Como em qualquer inovação, há pedras no caminho:
- Regulação incerta: cartórios e conselhos de registro pressionam por participação obrigatória nas transações, o que pode elevar custos.
- Segurança cibernética: mesmo que a blockchain seja praticamente inviolável, smart contracts mal escritos podem ter brechas — vide casos como o The DAO em 2016.
- Adoção do usuário: carteiras digitais, chaves privadas e termos como “seed phrase” ainda afastam o público menos técnico. Hardware wallets como Ledger e Trezor ajudam, mas exigem curva de aprendizado.
O que observar nos próximos meses
1. Legislativo brasileiro: o PL 4 401/2021, que cria regras para criptoativos, pode ganhar emendas focadas em tokenização de bens reais.
2. Grandes bancos: Itaú e Santander já testam proof of concepts internos; se um deles abrir marketplace, a adoção pode escalar.
3. Gigantes de tecnologia: rumores apontam que a AWS prepara serviço de tokenização as-a-service após a instabilidade de novembro de 2024.
Vale a pena se antecipar?
Se você é investidor de longo prazo, acompanhar projetos sérios de tokenização pode oferecer diversificação além da Bolsa. Quem trabalha com corretagem, cartórios ou tabelionatos precisa ficar de olho: a disrupção bate à porta, assim como ocorreu com fintechs no sistema bancário.
No fim das contas, os “JPEGs milionários” podem ter passado, mas a lógica de registrar um ativo único em rede descentralizada está apenas começando. **A próxima grande febre cripto talvez não seja colecionar arte digital, mas sim comprar (e vender) frações de algo que você realmente possa tocar — ou morar dentro.**
Com informações de TecMundo