Um gole aparentemente inocente de cachaça ou vodca pode esconder um inimigo mortal: o metanol. Pensando nisso, pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, desenvolveram um teste ultrarrápido e de baixo custo capaz de identificar a presença da substância em bebidas alcoólicas, combustíveis e até no etanol de posto em menos de meia hora.
O que torna esse teste diferente?
Hoje, bares, distribuidores e até pequenos produtores artesanais dependem, na maioria das vezes, de análises laboratoriais demoradas — cromatografia ou espectrometria — para confirmar se um produto está livre de adulteração. O método da Unesp, criado em 2022, substitui equipamentos caríssimos por um kit de cerca de R$ 15, composto basicamente por:
- Um sal catalisador que converte o metanol em formol;
- Um ácido revelador responsável por mudar a cor da solução.
Basta pingar algumas gotas da bebida suspeita, adicionar o reagente e aguardar. Em 15 minutos a bebida alcoólica (ou 25 minutos no caso de combustíveis) ganha colorações que vão do verde ao azul-marinho, indicando a concentração de metanol.
Escala de cores: entenda a leitura do teste
- Verde brilhante – seguro: sem metanol detectável;
- Verde amarronzado – alerta: 0,1% a 0,4%;
- Marrom – perigoso: 0,5% a 0,9%;
- Roxo – crítico: 1% a 20%;
- Azul-marinho – extremo: 50% a 100%.
Segundo a universidade, foram realizados diversos ensaios em laboratório e em campo, todos com 100% de acerto na detecção da substância.
Por que isso importa para você?
Casos de intoxicação por metanol vêm crescendo em vários estados brasileiros. Só em São Paulo, cinco pessoas morreram após consumir destilados adulterados; Bahia, Pernambuco e o Distrito Federal já registram ocorrências semelhantes. O problema é que, diferente do etanol, o metanol não é metabolizado adequadamente, podendo causar cegueira irreversível, falência renal e morte em poucas horas.
A praticidade e o baixo preço do kit da Unesp favorecem a adoção em:
Imagem: Internet
- Pequenos alambiques, para certificação de lotes antes da venda;
- Bares e restaurantes que buscam reforçar protocolos de segurança;
- Distribuidoras e atacadistas que precisam testar amostras rapidamente;
- Postos de combustível, reduzindo riscos de fraude em etanol.
Comparativo rápido: laboratório x kit da Unesp
| Critério | Análise laboratorial | Kit da Unesp |
| Tempo de resposta | Horas ou dias | 15 a 25 min |
| Custo por amostra | R$ 150 a R$ 800 | ≈ R$ 15 |
| Equipamento especializado | Necessário | Não |
| Portabilidade | Impossível | Bolso/mochila |
E quando chegar ao mercado?
O processo ainda aguarda a etapa de transferência de tecnologia para empresas interessadas em fabricar o kit em escala. Se tudo correr como planejado, é provável que vejamos versões comerciais — possivelmente até em grandes marketplaces como a Amazon — já nos próximos ciclos de licenciamento.
Dicas de segurança enquanto o kit não está disponível
• Compre bebidas de procedência conhecida e observe selos fiscais;
• Desconfie de preços muito abaixo da média de mercado;
• Em caso de dor de cabeça intensa, náusea ou visão turva após consumir álcool, procure atendimento médico imediatamente e leve a garrafa suspeita para análise.
O avanço da Unesp mostra que a combinação de ciência de ponta e soluções acessíveis pode colocar um freio na adulteração de bebidas — e, literalmente, salvar vidas a cada dose conferida.
Com informações de TecMundo