Imagine um oceano tão profundo que engoliria o Monte Everest – duas vezes. Essa é a dimensão do reservatório subterrâneo que, segundo um novo estudo aceito pela revista científica Icarus, pode ter existido (e talvez ainda exista) em Ariel, uma das cinco principais luas de Urano. A pesquisa, liderada pelo Planetary Science Institute, modelou como o gigante gasoso estica e comprime sua lua ao longo das eras, revelando sinais claros de um passado aquático com mais de 170 km de profundidade.
Por que Ariel virou a bola da vez entre as “luas oceânicas”
Luas como Europa (Júpiter) e Enceladus (Saturno) já são celebridades quando o assunto é água líquida abaixo do gelo. Agora, Ariel se junta a essa lista seleta graças a dois fatores:
- Excentricidade orbital extrema: os pesquisadores calcularam um valor de 0,04 para a antigo formato de órbita de Ariel – 40 vezes mais excêntrica que hoje e 4 vezes maior que a de Europa. Esse “vai-e-vem” gravitacional gera fricção interna, aquecendo o interior e mantendo a água em estado líquido.
- Superfície cheia de fraturas: as imensas rachaduras e cordilheiras observadas pela sonda Voyager 2 em 1986 só fazem sentido se existir, ou tiver existido, uma camada de água ou lama salina sobre a qual a crosta se dobra.
Oceano gigante ou lago profundo? Os dois cenários possíveis
A equipe trabalha com duas hipóteses:
- Oceano global de 170 km: Ariel seria quase um “planeta-oceano”, coberto por uma casca de gelo relativamente fina.
- Oceano regional: um reservatório menor, porém sob forte influência das marés uranianas, capaz de provocar as mesmas fraturas.
Em ambos os casos, a presença de água líquida, calor interno e elementos químicos traz à tona a velha questão: poderia haver vida microscópica ali? Os ingredientes são parecidos com os encontrados em Europa e Enceladus, onde a comunidade científica já busca bioassinaturas.
Missão Uranus Orbiter & Probe: propósito reforçado
A descoberta chega em boa hora. A missão Uranus Orbiter & Probe, listada como prioridade da NASA para 2023-2032, planeja acompanhar Urano e suas luas por cinco anos. Se aprovada pelo Congresso norte-americano, a sonda deve levar câmeras multiespectrais, magnetômetros e radares de penetração de gelo, capazes de confirmar ou descartar a presença desse oceano colossal.
O que isso muda para os entusiastas de astronomia (e seu setup)
Embora Urano seja um alvo difícil a olho nu, telescópios a partir de 114 mm de abertura já permitem ver o disco esverdeado do planeta em noites estáveis. Quem utiliza montagens motorizadas GoTo – como as populares linhas AstroMaster e StarSense vendidas no Brasil – terá mais facilidade para acompanhar as efemérides das quatro principais luas (Ariel, Umbriel, Titania e Oberon) durante as próximas oposições.
Imagem: NASA
Para um registro fotográfico, câmeras planetárias USB de alta sensibilidade (ex.: ZWO ASI224MC) emparelhadas a um laptop com software de “stacking” capturam frames suficientes para revelar pontos luminosos que correspondem às luas, um projeto didático que cresce em foruns de astrofotografia.
Próximos passos: voltar onde a Voyager 2 passou voando
Em 1986, a Voyager 2 fez o único sobrevoo humano em Urano. Hoje, com sensores de última geração e inteligência artificial a bordo, uma nova sonda teria potencial para mapear as rachaduras de Ariel em resolução de centenas de metros, detectar variações gravitacionais e talvez até cheirar gêiseres de água – caso existam, como ocorre em Enceladus.
“Só precisamos voltar ao sistema de Urano e ver por nós mesmos”, resume Tom Nordheim, coautor do estudo e pesquisador da Johns Hopkins. Enquanto o foguete não decola, astrônomos profissionais e amadores podem apontar seus equipamentos da varanda ou do observatório local e acompanhar, em tempo real, a preparação dessa que promete ser a próxima grande aventura interplanetária.
Com informações de Olhar Digital